Autor: Marco Fischer
Escrever ‘Filho das Profundezas’ foi uma experiência interessante e diferente do que estou acostumado a escrever. Creio ter sido uma das histórias mais longas que produzi, e ainda assim no fim ela pareceu grande demais para as cinquenta e poucas páginas. E isso porque durante o desenvolvimento ela se afastou bastante de vários conceitos originais, o que é perceptível pela sinopse com acontecimentos que acabaram não ocorrendo. Claro, o processo de criação me ensinou muitas coisas e no fim das contas entre erros e acertos fico feliz de tê-la concluído.
A vontade que tenho é de estender essa história no futuro. Como alguns sabem, ela se passa em um universo muito maior, que envolve o cenário do meu projeto ‘Crônicas do Mar de Prata’. Tentei incluir nela um pouco de vários elementos que são centrais nas Crônicas: o multiculturalismo, a presença constante de elementos de steampunk, fantasia e histórias de piratas, além das referências a Lovecraft e outros autores de weird fiction.
Escrever essa história também me permitiu conhecer um pouco das culturas havaiana e cigana, embora eu acredite que ainda tenha muito a aprender sobre ambas. De qualquer forma, fico feliz por as pessoas terem gostado de uma protagonista diferente do usual, isso me motiva a escrever mais histórias assim. Também foi legal poder incluir vários elementos vindos de inspirações tão diversas como oceanologia, D&D e subculturas urbanas.
Deixo aqui meu agradecimento à Mid Misha pela oportunidade de participar e também a todos os leitores que acompanharam os capítulos e incentivaram: Rafaela, Matiazi, Danie, Ícaro e todos os outros. Não posso deixar de agradecer também aos demais ‘competidores’ do MONOBA por contribuírem com suas histórias únicas e fascinantes, que deixaram esse projeto ainda mais legal de fazer parte.
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sexta-feira, 19 de setembro de 2014
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Filho das Profundezas [Semana 25]
Autor: Marco Fischer
Parte XXV - Abismo
Violka afundava na escuridão de Ula-Yhloa, mergulhando entre as glórias afogadas do Império de Lemuria. Estátuas de heróis esquecidos eram sua plateia enquanto descia até um salão submerso, ainda maior do que aquele onde havia enfrentado o monstro agora soterrado pelas ruínas.
Logo Violka não mais prendia a respiração ou sentia a água gelada em seu corpo. Estava suspensa nas trevas, diante de algo tão imenso que ela não conseguia vislumbrar de uma só vez. Mas não estava com medo. Sempre soube que não era mais do que um pequeno ponto diante da vastidão do oceano, e isso não a impedia de navegar através dele.
Era isso que precisava fazer agora, deixar sua consciência fluir livremente como um pássaro através daquele abismo. Era como se manter lúcida em um pesadelo, embora fosse mais vívido e ela soubesse que não tinha muito tempo.
Naquele turbilhão, ela via passar os últimos dias da Lemuria. Cidades-ilha de pedra e cristal eram tragadas pelas ondas e por seres tão antigos quanto o mundo. A imagem do deus-peixe surgia inúmeras vezes, rodeada por seus adoradores. Mas o que era aquilo em que estavam se transformando?
Lemuria jamais esteve morta. Ela apenas abandonou a miséria da superfície, indo para junto de seu senhor e protetor. Nossa linhagem persiste em Ula-Yhloa, e todas as outras cidades imortais onde vivemos sob a graça de nosso Pai Dagon.
Assaltada pelas memórias, Violka via que aquilo não era uma divindade de fato. Era uma criatura gigantesca e demoníaca, que nadava nas profundezas do éter e agora se manifestava na consciência do Maleko. O garoto e aquele horror ancestral estavam ligados de algum modo, e esse era um grilhão que ela não poderia romper.
-Foi por isso que fugiu, não é? Estava confuso e com medo. Por não ser como os outros de sua espécie, e pelo que a Ordem queria que se tornasse. Sua mente não é fraca como a deles. Você não é um escravo. Mas não sabe o que fazer com essa liberdade.
Violka falava para a escuridão ao seu redor, sem a certeza de que suas palavras chegariam ao Maleko que havia conhecido. Mas mesmo que a presença maior não diminuísse, ela sentia que ele ainda estava ali, tentando encontrar a si mesmo no olho da tempestade.
O infante é apenas uma concha. Dentro dele está a próxima geração de nossa raça abissal. Seu único propósito é reproduzir e transmitir seu sangue aos rebentos, tornando Lemuria ainda mais forte e expandindo os domínios de nosso Pai Dagon.
-Você sabe que não. Você sabe que pode dominar esse poder e escolher o que irá se tornar. Já conseguiu abrir seus olhos e fugir uma vez, então não há desculpa para se entregar agora!
Uma explosão de água atingiu Violka, e ela sentiu que seu corpo se afogaria ainda mais rápido. Sua maior luta era para se manter sã e consciente naquele turbilhão, que tentava levar embora sua mente como uma correnteza. E sua batalha finalmente estava começando a surtir efeito, pois a silhueta do Maleko surgia outra vez diante dela, falando dessa vez diretamente.
-Se queria me libertar, por que me trouxe aqui? Por que não me manteve longe do mar e dessa ilha? Eu já havia fugido, e tudo que fez foi me arrastar de volta até minha prisão.
-Se não tivesse lhe trazido até aqui, você ainda seria um escravo, mas da própria ignorância. – respondeu a capitã com serenidade, percebendo sua visão começar a ficar turva. – O medo do desconhecido é o pior dos medos, e desconhecer a si mesmo é estar aprisionado nele para sempre.
-E se eu resolver que sou mesmo um arauto de Dagon? E se eu quiser ficar com Lemuria e te arrastar para ser devorada por meus irmãos?
-Ficar com os que te criaram é escolha sua, mas você não vai me matar – ela dizia com um sorriso, já no limiar de sua consciência.
-Você diz que sou livre para qualquer coisa. Então o que me impede de te levar para as profundezas como um presente a Pai Dagon?
-Saber que se algum dia você desistir dessa vida, eu estarei lá em cima para te ajudar outra vez a achar um caminho.
Nesse momento o laço telepático se quebrou, e Violka se viu mais uma vez no salão submerso de Ula-Yhloa. Seu último fôlego se esvaiu e a inconsciência veio como um alívio para a dor em seus pulmões repletos de água.
Chuva de Outono caminhou até a cabine do Hummingbird, após a tripulação finalmente se livrar do fedor dos cadáveres dos híbridos-peixe. Abrindo a porta, ela viu Pesha folheando um dos livros da capitã. Seu rosto se entristeceu enquanto entrava, mas logo se iluminou em um sorriso ao ver Violka se remexendo na rede e murmurando.
-Que dor de cabeça...
Após o funeral de Stevo, os três estavam juntos outra vez, sentados no convés em meio a várias garrafas. Pesha explicava novamente como havia encontrado a capitã na praia, e como a ilha havia sido engolida pela maré alta pouco depois de terem sido resgatados pela tripulação, desaparecendo completamente.
-Todas as evidências se foram. Eles nunca vão me aceitar como um acadêmico do Império agora. – lamentava o rapaz.
-Você sabe que nunca precisou disso, Pesha. Vamos te levar até a capital e você vai provar de uma vez por todas que é tão digno quanto qualquer um que está lá!
O estudioso deu um sorriso tímido enquanto Violka se levantava lhe dando um tapinha no ombro. Então se ergueu mais confiante e perguntou.
-E depois? Para onde você vai?
Violka se debruçou na amurada do navio, olhando para o anoitecer no oceano como se procurasse por algo na imensidão.
-Eu descobri que o mar é a ainda maior do que pensava. Não vou esquecer as coisas que aconteceram lá embaixo, e você me conhece muito bem para saber que para mim um novo par de asas significa um novo céu para explorar, por mais sombrio e tempestuoso que ele seja.
Parte XXV - Abismo
Violka afundava na escuridão de Ula-Yhloa, mergulhando entre as glórias afogadas do Império de Lemuria. Estátuas de heróis esquecidos eram sua plateia enquanto descia até um salão submerso, ainda maior do que aquele onde havia enfrentado o monstro agora soterrado pelas ruínas.
Logo Violka não mais prendia a respiração ou sentia a água gelada em seu corpo. Estava suspensa nas trevas, diante de algo tão imenso que ela não conseguia vislumbrar de uma só vez. Mas não estava com medo. Sempre soube que não era mais do que um pequeno ponto diante da vastidão do oceano, e isso não a impedia de navegar através dele.
Era isso que precisava fazer agora, deixar sua consciência fluir livremente como um pássaro através daquele abismo. Era como se manter lúcida em um pesadelo, embora fosse mais vívido e ela soubesse que não tinha muito tempo.
Naquele turbilhão, ela via passar os últimos dias da Lemuria. Cidades-ilha de pedra e cristal eram tragadas pelas ondas e por seres tão antigos quanto o mundo. A imagem do deus-peixe surgia inúmeras vezes, rodeada por seus adoradores. Mas o que era aquilo em que estavam se transformando?
Lemuria jamais esteve morta. Ela apenas abandonou a miséria da superfície, indo para junto de seu senhor e protetor. Nossa linhagem persiste em Ula-Yhloa, e todas as outras cidades imortais onde vivemos sob a graça de nosso Pai Dagon.
Assaltada pelas memórias, Violka via que aquilo não era uma divindade de fato. Era uma criatura gigantesca e demoníaca, que nadava nas profundezas do éter e agora se manifestava na consciência do Maleko. O garoto e aquele horror ancestral estavam ligados de algum modo, e esse era um grilhão que ela não poderia romper.
-Foi por isso que fugiu, não é? Estava confuso e com medo. Por não ser como os outros de sua espécie, e pelo que a Ordem queria que se tornasse. Sua mente não é fraca como a deles. Você não é um escravo. Mas não sabe o que fazer com essa liberdade.
Violka falava para a escuridão ao seu redor, sem a certeza de que suas palavras chegariam ao Maleko que havia conhecido. Mas mesmo que a presença maior não diminuísse, ela sentia que ele ainda estava ali, tentando encontrar a si mesmo no olho da tempestade.
O infante é apenas uma concha. Dentro dele está a próxima geração de nossa raça abissal. Seu único propósito é reproduzir e transmitir seu sangue aos rebentos, tornando Lemuria ainda mais forte e expandindo os domínios de nosso Pai Dagon.
-Você sabe que não. Você sabe que pode dominar esse poder e escolher o que irá se tornar. Já conseguiu abrir seus olhos e fugir uma vez, então não há desculpa para se entregar agora!
Uma explosão de água atingiu Violka, e ela sentiu que seu corpo se afogaria ainda mais rápido. Sua maior luta era para se manter sã e consciente naquele turbilhão, que tentava levar embora sua mente como uma correnteza. E sua batalha finalmente estava começando a surtir efeito, pois a silhueta do Maleko surgia outra vez diante dela, falando dessa vez diretamente.
-Se queria me libertar, por que me trouxe aqui? Por que não me manteve longe do mar e dessa ilha? Eu já havia fugido, e tudo que fez foi me arrastar de volta até minha prisão.
-Se não tivesse lhe trazido até aqui, você ainda seria um escravo, mas da própria ignorância. – respondeu a capitã com serenidade, percebendo sua visão começar a ficar turva. – O medo do desconhecido é o pior dos medos, e desconhecer a si mesmo é estar aprisionado nele para sempre.
-E se eu resolver que sou mesmo um arauto de Dagon? E se eu quiser ficar com Lemuria e te arrastar para ser devorada por meus irmãos?
-Ficar com os que te criaram é escolha sua, mas você não vai me matar – ela dizia com um sorriso, já no limiar de sua consciência.
-Você diz que sou livre para qualquer coisa. Então o que me impede de te levar para as profundezas como um presente a Pai Dagon?
-Saber que se algum dia você desistir dessa vida, eu estarei lá em cima para te ajudar outra vez a achar um caminho.
Nesse momento o laço telepático se quebrou, e Violka se viu mais uma vez no salão submerso de Ula-Yhloa. Seu último fôlego se esvaiu e a inconsciência veio como um alívio para a dor em seus pulmões repletos de água.
Chuva de Outono caminhou até a cabine do Hummingbird, após a tripulação finalmente se livrar do fedor dos cadáveres dos híbridos-peixe. Abrindo a porta, ela viu Pesha folheando um dos livros da capitã. Seu rosto se entristeceu enquanto entrava, mas logo se iluminou em um sorriso ao ver Violka se remexendo na rede e murmurando.
-Que dor de cabeça...
Após o funeral de Stevo, os três estavam juntos outra vez, sentados no convés em meio a várias garrafas. Pesha explicava novamente como havia encontrado a capitã na praia, e como a ilha havia sido engolida pela maré alta pouco depois de terem sido resgatados pela tripulação, desaparecendo completamente.
-Todas as evidências se foram. Eles nunca vão me aceitar como um acadêmico do Império agora. – lamentava o rapaz.
-Você sabe que nunca precisou disso, Pesha. Vamos te levar até a capital e você vai provar de uma vez por todas que é tão digno quanto qualquer um que está lá!
O estudioso deu um sorriso tímido enquanto Violka se levantava lhe dando um tapinha no ombro. Então se ergueu mais confiante e perguntou.
-E depois? Para onde você vai?
Violka se debruçou na amurada do navio, olhando para o anoitecer no oceano como se procurasse por algo na imensidão.
-Eu descobri que o mar é a ainda maior do que pensava. Não vou esquecer as coisas que aconteceram lá embaixo, e você me conhece muito bem para saber que para mim um novo par de asas significa um novo céu para explorar, por mais sombrio e tempestuoso que ele seja.
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semana 25
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Filho das Profundezas [Semana 24]
Autor: Marco Fischer
Parte XXIV - Finta
-Você não sabe com o que está se metendo! – disse a oriental com seriedade, deixando os braços penderem de lado enquanto o monstro crustáceo se inclinava na direção de Violka – Aquele garoto carrega a próxima linhagem de nossa Ordem. Eu recebi a honra de ser sua consorte, e trazer ao mundo uma prole abençoada pelo nosso senhor do mar.
-E então ele te deixou esperando vestida de noiva? Mas que tragédia! – respondeu a capitã, ocultando a ferida que sentia ser tocada dentro de si. Muitos de seu povo não gostavam do fato dela ser uma mulher independente e solteira, e mais de uma família havia se ofendido com a recusa de um pretendente. A liberdade de que dispunha não havia sido conquistada sem um custo, e por isso lhe era tão preciosa.
Violka circulava lentamente de costas pela sala enquanto era seguida pela criatura. Fugir não seria fácil, então teria que ficar e lutar. Mas sua inimiga não precisava saber disso. Sempre com a espada em riste, ela se aproximou da escada e fingiu que tentaria subir. O monstro marinho atacou com sua garra, abrindo a guarda enquanto a capitã dardejava em sua direção como um pássaro veloz.
A criatura emitiu um assovio de dor, recuando desajeitada enquanto seus olhos eram feridos pela ponta aguda da espada de Violka. Seus tentáculos rapidamente agarraram o braço da capitã, tentando puxá-la para as mandíbulas ocultas abaixo deles. Violka sentiu então seus músculos se anestesiarem, tocados por alguma forte toxina secretada pelo monstro.
Usando o calor da batalha para resistir à paralisia, ela agarrou os tentáculos e se balançou na direção da criatura. Um chute certeiro fez o crustáceo assoviar mais alto, esguichando um líquido escuro pela carapaça. A oriental observou intrigada enquanto tentava manter-se equilibrada, o que ficou mais difícil quando outro chute acertou o monstro logo abaixo da cabeça.
Violka já havia analisado a situação. Uma criatura grande e pesada em um salão em ruínas literalmente só precisava de um empurrãozinho. As lâminas escondidas nas suas botas, impulsionadas por molas, eram a melhor carta na manga que possuía. Pego de surpresa, o monstro a derrubou enquanto trombava nas paredes desorientado.
Sem espaço e parcialmente cego, o crustáceo sacudia suas grandes tenazes tentando acertar Violka, mas só o que conseguia era danificar ainda mais a estrutura do lugar, que começava a desabar. Agarrando a lanterna de lótus, Violka correu para as escadas, mas seu caminho foi bloqueado por um jato de ácido fluorescente.
Livre do monstro, a oriental havia usado seus tentáculos gelatinosos para alcançar uma posição mais acima, e já se preparava para lançar outro projétil cáustico contra a capitã. Ela estaria vulnerável na subida, e sem tempo para perder com as ruínas indo abaixo.
Foi o cheiro do mar que fez a capitã ter o impulso de saltar dentro do poço escuro no centro do salão. O cheiro do mar e uma voz que começava a falar em sua mente, e fazia seus olhos se cobrirem de um piche negro.
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Parte XXIV - Finta
-Você não sabe com o que está se metendo! – disse a oriental com seriedade, deixando os braços penderem de lado enquanto o monstro crustáceo se inclinava na direção de Violka – Aquele garoto carrega a próxima linhagem de nossa Ordem. Eu recebi a honra de ser sua consorte, e trazer ao mundo uma prole abençoada pelo nosso senhor do mar.
-E então ele te deixou esperando vestida de noiva? Mas que tragédia! – respondeu a capitã, ocultando a ferida que sentia ser tocada dentro de si. Muitos de seu povo não gostavam do fato dela ser uma mulher independente e solteira, e mais de uma família havia se ofendido com a recusa de um pretendente. A liberdade de que dispunha não havia sido conquistada sem um custo, e por isso lhe era tão preciosa.
Violka circulava lentamente de costas pela sala enquanto era seguida pela criatura. Fugir não seria fácil, então teria que ficar e lutar. Mas sua inimiga não precisava saber disso. Sempre com a espada em riste, ela se aproximou da escada e fingiu que tentaria subir. O monstro marinho atacou com sua garra, abrindo a guarda enquanto a capitã dardejava em sua direção como um pássaro veloz.
A criatura emitiu um assovio de dor, recuando desajeitada enquanto seus olhos eram feridos pela ponta aguda da espada de Violka. Seus tentáculos rapidamente agarraram o braço da capitã, tentando puxá-la para as mandíbulas ocultas abaixo deles. Violka sentiu então seus músculos se anestesiarem, tocados por alguma forte toxina secretada pelo monstro.
Usando o calor da batalha para resistir à paralisia, ela agarrou os tentáculos e se balançou na direção da criatura. Um chute certeiro fez o crustáceo assoviar mais alto, esguichando um líquido escuro pela carapaça. A oriental observou intrigada enquanto tentava manter-se equilibrada, o que ficou mais difícil quando outro chute acertou o monstro logo abaixo da cabeça.
Violka já havia analisado a situação. Uma criatura grande e pesada em um salão em ruínas literalmente só precisava de um empurrãozinho. As lâminas escondidas nas suas botas, impulsionadas por molas, eram a melhor carta na manga que possuía. Pego de surpresa, o monstro a derrubou enquanto trombava nas paredes desorientado.
Sem espaço e parcialmente cego, o crustáceo sacudia suas grandes tenazes tentando acertar Violka, mas só o que conseguia era danificar ainda mais a estrutura do lugar, que começava a desabar. Agarrando a lanterna de lótus, Violka correu para as escadas, mas seu caminho foi bloqueado por um jato de ácido fluorescente.
Livre do monstro, a oriental havia usado seus tentáculos gelatinosos para alcançar uma posição mais acima, e já se preparava para lançar outro projétil cáustico contra a capitã. Ela estaria vulnerável na subida, e sem tempo para perder com as ruínas indo abaixo.
Foi o cheiro do mar que fez a capitã ter o impulso de saltar dentro do poço escuro no centro do salão. O cheiro do mar e uma voz que começava a falar em sua mente, e fazia seus olhos se cobrirem de um piche negro.
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semana 24
sexta-feira, 29 de agosto de 2014
Filho das Profundezas [Semana 23]
Autor: Marco Fischer
Parte XXIII - Chuul
Quanto mais tentava se afastar de Ula-Yhloa, mais o Maleko sentia a ilha arrastá-lo de volta. Seu corpo estava pesado, e estava ficando quase impossível se orientar na água turva e arroxeada, com reflexos de um verde brilhante cintilando de forma fantasmagórica acima. Os corais brancos se estendiam como uma floresta sem vida, e ele tinha a impressão de avistar grandes torres de pedra escura na distância.
Ao chegar mais perto, ele tinha a certeza de enxergar enormes pilares, entalhados com formas monstruosas parecidas com os híbridos-peixe que haviam atacado o navio. Um choque percorreu seu corpo e ele teve vontade de nadar o mais rápido possível para longe daquelas estruturas, mas seu corpo havia parado de obedecê-lo e se deixava afundar no estupor daquelas águas.
Uma escuridão esverdeada o envolveu e trouxe com ela uma presença esmagadora, que tornava a água mais densa apenas de estar ali. Não era como o Arauto de Kanaloa no fundo do abismo de areia. Era algo ainda maior, um ser de tamanho impensável que o rodeava de todas as direções. Uma confusão de bioluminescências, tentáculos colossais e formas grotescas de peixes abissais.
Ainda assim, o Maleko tentou se defender como daquela vez, os olhos se tingindo de negro e o redemoinho de pensamentos subconscientes se formando ao seu redor. Mas a entidade simplesmente ignorou o turbilhão psíquico, como se ele estivesse girando na palma de uma mão invisível. Sentindo sua mente mergulhar nas trevas infindáveis do que havia tentado tocar, o garoto-peixe entendeu o motivo de seus poderes não terem surtido efeito.
Aquilo não era algo distinto dele. Aquilo era algo como ele, e ele era apenas uma pequena parte daquilo.
Violka saltou para o lado a tempo de evitar a garra deformada que tentou apanhá-la. Com a lanterna habilmente colocada sobre o chão e a rapieira em riste, ela se colocou em postura de desafio diante da criatura que terminava de erguer seu corpo através do poço no centro do salão.
Era um ser repugnante, que de longe lembrava os entalhes das sentinelas nas paredes. Uma carapaça amarelada e áspera o cobria, e quatro longas patas o sustentavam além das outras duas que terminavam em tenazes exageradas. A cabeça exibia apenas um par de olhos minúsculos, e uma franja de tentáculos se contorcia onde deveria estar a boca.
Quando o monstro crustáceo terminou de emergir sacudindo sua cauda de lagosta, outra figura surgiu sobre suas costas. Era a mulher oriental mais uma vez, apoiada sobre a criatura com seu vestido gelatinoso como uma anêmona sobre um caranguejo-ermitão, e portando uma elegante sombrinha violeta. Violka deu um sorriso torto e logo falou provocativa:
-Trouxe um amiguinho pra brincar? Estava começando a estranhar sua demora.
-Já chega de sua insolência, pirata! – sibilou a outra com um olhar severo. – Nós teremos o garoto de volta e você e sua tripulação serão reduzidos a nada!
-Eu já falei que vocês não mandam no destino dele! – retrucou a capitã, estreitando o olhar – E muito menos no nosso.
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Parte XXIII - Chuul
Quanto mais tentava se afastar de Ula-Yhloa, mais o Maleko sentia a ilha arrastá-lo de volta. Seu corpo estava pesado, e estava ficando quase impossível se orientar na água turva e arroxeada, com reflexos de um verde brilhante cintilando de forma fantasmagórica acima. Os corais brancos se estendiam como uma floresta sem vida, e ele tinha a impressão de avistar grandes torres de pedra escura na distância.
Ao chegar mais perto, ele tinha a certeza de enxergar enormes pilares, entalhados com formas monstruosas parecidas com os híbridos-peixe que haviam atacado o navio. Um choque percorreu seu corpo e ele teve vontade de nadar o mais rápido possível para longe daquelas estruturas, mas seu corpo havia parado de obedecê-lo e se deixava afundar no estupor daquelas águas.
Uma escuridão esverdeada o envolveu e trouxe com ela uma presença esmagadora, que tornava a água mais densa apenas de estar ali. Não era como o Arauto de Kanaloa no fundo do abismo de areia. Era algo ainda maior, um ser de tamanho impensável que o rodeava de todas as direções. Uma confusão de bioluminescências, tentáculos colossais e formas grotescas de peixes abissais.
Ainda assim, o Maleko tentou se defender como daquela vez, os olhos se tingindo de negro e o redemoinho de pensamentos subconscientes se formando ao seu redor. Mas a entidade simplesmente ignorou o turbilhão psíquico, como se ele estivesse girando na palma de uma mão invisível. Sentindo sua mente mergulhar nas trevas infindáveis do que havia tentado tocar, o garoto-peixe entendeu o motivo de seus poderes não terem surtido efeito.
Aquilo não era algo distinto dele. Aquilo era algo como ele, e ele era apenas uma pequena parte daquilo.
Violka saltou para o lado a tempo de evitar a garra deformada que tentou apanhá-la. Com a lanterna habilmente colocada sobre o chão e a rapieira em riste, ela se colocou em postura de desafio diante da criatura que terminava de erguer seu corpo através do poço no centro do salão.
Era um ser repugnante, que de longe lembrava os entalhes das sentinelas nas paredes. Uma carapaça amarelada e áspera o cobria, e quatro longas patas o sustentavam além das outras duas que terminavam em tenazes exageradas. A cabeça exibia apenas um par de olhos minúsculos, e uma franja de tentáculos se contorcia onde deveria estar a boca.
Quando o monstro crustáceo terminou de emergir sacudindo sua cauda de lagosta, outra figura surgiu sobre suas costas. Era a mulher oriental mais uma vez, apoiada sobre a criatura com seu vestido gelatinoso como uma anêmona sobre um caranguejo-ermitão, e portando uma elegante sombrinha violeta. Violka deu um sorriso torto e logo falou provocativa:
-Trouxe um amiguinho pra brincar? Estava começando a estranhar sua demora.
-Já chega de sua insolência, pirata! – sibilou a outra com um olhar severo. – Nós teremos o garoto de volta e você e sua tripulação serão reduzidos a nada!
-Eu já falei que vocês não mandam no destino dele! – retrucou a capitã, estreitando o olhar – E muito menos no nosso.
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Marco Fischer,
semana 23
sexta-feira, 22 de agosto de 2014
Filho das Profundezas [Semana 22]
Autor: Marco Fischer
Parte XXII - Lemuria
A flor de lótus mágica no interior da lanterna de Violka brilhou com mais intensidade quando a capitã se aproximou para examinar a estátua de cristal. Com sua postura imponente de um imperador da cintura para cima e a comprida cauda de peixe serpenteando abaixo, a figura não deixava dúvidas de ser uma representação de Dagon, o último Aeon da antiga Lemuria.
Incontáveis eras antes, o mundo em que Violka vivia abrigava reinos que ofuscariam com sombras monumentais o Império Windlês e a Liga Aurinesa, mesmo com a avançada tecnologia das novas civilizações. Pois as nações antigas contavam com os milagres dos Aeons, entidades divinas que concediam aos seus Reis Sacerdotes poderes capazes de desafiar até mesmo as ciências arcanas.
Entre esses reinos estava Lemuria. Assim como suas irmãs Atlântida e Mu, ela havia recebido as bênçãos dos Aeons que regiam os mares, se tornando soberana sobre as ondas. Mas quando o Crepúsculo dos Deuses se abateu sobre o mundo, levando com ele grande parte da magia divina, as águas deixaram de obedecê-la, deixando-a isolada e vulnerável no meio do oceano.
Isso era quase tudo que Violka sabia a partir dos livros ou das conversas com Pesha: Lemuria havia sido a nação que mais perdurara após o Crepúsculo, se mantendo próspera graças a Dagon, um Aeon que não havia sido afetado pelo catastrófico evento. Mesmo assim, ela acabou desaparecendo em algum momento, restando apenas escassas ruínas cobertas de algas que não revelavam nenhuma pista sobre seu fim.
O interesse do Capitão Roberts em Ula-Yhloa era mais compreensível agora, assim como o motivo de jamais ter revelado a localização da ilha. O navegador do lendário pirata, Ernest Crow, era um homem obcecado pela história das civilizações de antes do Crepúsculo dos Deuses, e pelos nebulosos segredos que ainda guardavam.
Claro, piratas jamais deixavam de ser piratas, e Violka não teve nenhuma surpresa ao verificar que a estátua tinha vários sulcos onde antes deviam estar pedras preciosas e outros engastes valiosos. Balançando a cabeça e rindo ao mesmo tempo em que sentia uma pontada de frustração, a capitã girou uma pequena peça na base da lanterna, liberando uma fina nuvem de pólen luminoso da lótus que servia como chama.
O pó flutuou por toda a câmara em um padrão aparentemente irregular, até começar a se assentar nas paredes e no chão e brilhar, revelando inscrições que estavam ocultas na pedra desgastada ou que jamais deveriam ser visíveis a olho nu. Ela conseguia reconhecer a rebuscada escrita lemuriana surgindo nos murais e altares, assim como a língua imortal dos seres das águas, que conhecia tão bem.
Outra escrita mais recente, porém, ela não conseguia identificar. Eram símbolos caóticos e estranhos, que lhe davam tontura apenas por olhar diretamente. Quando mal havia se recuperado da vertigem, o som de água espirrando fez com que entrasse em alerta e levasse a mão ao punho do sabre. Algo estava saindo do poço no centro da câmara, e ela tinha a sensação de que não era amigável.
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Parte XXII - Lemuria
A flor de lótus mágica no interior da lanterna de Violka brilhou com mais intensidade quando a capitã se aproximou para examinar a estátua de cristal. Com sua postura imponente de um imperador da cintura para cima e a comprida cauda de peixe serpenteando abaixo, a figura não deixava dúvidas de ser uma representação de Dagon, o último Aeon da antiga Lemuria.
Incontáveis eras antes, o mundo em que Violka vivia abrigava reinos que ofuscariam com sombras monumentais o Império Windlês e a Liga Aurinesa, mesmo com a avançada tecnologia das novas civilizações. Pois as nações antigas contavam com os milagres dos Aeons, entidades divinas que concediam aos seus Reis Sacerdotes poderes capazes de desafiar até mesmo as ciências arcanas.
Entre esses reinos estava Lemuria. Assim como suas irmãs Atlântida e Mu, ela havia recebido as bênçãos dos Aeons que regiam os mares, se tornando soberana sobre as ondas. Mas quando o Crepúsculo dos Deuses se abateu sobre o mundo, levando com ele grande parte da magia divina, as águas deixaram de obedecê-la, deixando-a isolada e vulnerável no meio do oceano.
Isso era quase tudo que Violka sabia a partir dos livros ou das conversas com Pesha: Lemuria havia sido a nação que mais perdurara após o Crepúsculo, se mantendo próspera graças a Dagon, um Aeon que não havia sido afetado pelo catastrófico evento. Mesmo assim, ela acabou desaparecendo em algum momento, restando apenas escassas ruínas cobertas de algas que não revelavam nenhuma pista sobre seu fim.
O interesse do Capitão Roberts em Ula-Yhloa era mais compreensível agora, assim como o motivo de jamais ter revelado a localização da ilha. O navegador do lendário pirata, Ernest Crow, era um homem obcecado pela história das civilizações de antes do Crepúsculo dos Deuses, e pelos nebulosos segredos que ainda guardavam.
Claro, piratas jamais deixavam de ser piratas, e Violka não teve nenhuma surpresa ao verificar que a estátua tinha vários sulcos onde antes deviam estar pedras preciosas e outros engastes valiosos. Balançando a cabeça e rindo ao mesmo tempo em que sentia uma pontada de frustração, a capitã girou uma pequena peça na base da lanterna, liberando uma fina nuvem de pólen luminoso da lótus que servia como chama.
O pó flutuou por toda a câmara em um padrão aparentemente irregular, até começar a se assentar nas paredes e no chão e brilhar, revelando inscrições que estavam ocultas na pedra desgastada ou que jamais deveriam ser visíveis a olho nu. Ela conseguia reconhecer a rebuscada escrita lemuriana surgindo nos murais e altares, assim como a língua imortal dos seres das águas, que conhecia tão bem.
Outra escrita mais recente, porém, ela não conseguia identificar. Eram símbolos caóticos e estranhos, que lhe davam tontura apenas por olhar diretamente. Quando mal havia se recuperado da vertigem, o som de água espirrando fez com que entrasse em alerta e levasse a mão ao punho do sabre. Algo estava saindo do poço no centro da câmara, e ela tinha a sensação de que não era amigável.
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semana 22
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Filho das Profundezas [Semana 21]
Autor: Marco Fischer
Parte XXI - Chuva de Outono
Chuva de Outono descia apressadamente até os compartimentos inferiores do navio, se esgueirando entre os companheiros que recarregavam seus arcabuzes com coronha de madeira crua. Acima de sua cabeça, era possível ouvir o som das criaturas-peixe arranhando as tábuas do convés, o que só aumentava a sensação de urgência.
Ela precisava se certificar de que o Maleko estava seguro em seu pequeno aposento. Sabia que Violka ficaria muito triste se algo acontecesse a ele, e também era a única ali que podia explicar ao garoto o que estava acontecendo. Todos a bordo do Hummingbird tinham que ficar juntos para enfrentar aquelas coisas, e isso incluía seu novo amigo.
A tempestade fazia com que o navio balançasse de um lado para o outro, mas a elfa agilmente saltava de lado cada vez que a embarcação se inclinava demais. Esticando seu corpo através da entrada do porão, Chuva de Outono olhou em todo lugar a procura do Maleko, mas ele não estava lá. Um buraco havia sido feito no teto, dando para uma das portinholas mais afastadas do convés inferior.
A navegadora sentiu um nó na garganta e apanhou seu arco das costas, colocando uma das flechas de prontidão para acertar uma das criaturas e fugir depois de encontrar seu amigo. Mas o buraco era pequeno demais para o corpo robusto e escamoso dos híbridos-peixe, e havia sido aberto por algum tipo de explosão concentrada de dentro para fora, sem qualquer rastro de pólvora.
O Maleko havia fugido, era tudo que ela sabia. Tinha voltado para casa talvez, sem se despedir de ninguém. Ou tinha fugido daqueles monstros que atacavam o navio. Será que eles tinham vindo buscá-lo? Era tarde demais agora. Chuva de Outono precisava conter a dúvida e o remorso em seu coração, e voltar a ser a elfa alegre e esperta de sempre.
Com Violka na ilha e Stevo morto, ela era a única chance da tripulação escapar. E ela só conseguiria fazer isso se deixasse as preocupações de lado e voltasse a enxergar tudo como uma grande brincadeira, deixando a imaginação fluir e com ela seus sortilégios. O som dos tiros dos arcabuzes e o gorgolejar das criaturas a guiavam até o palco onde faria seu número especial de magia élfica.
Filha prematura do pântano e da decadência
Desperte de seu torpor e liberte sua essência
O broto murcho na palma da mão da navegadora se abriu com um estalido seco, liberando uma névoa esverdeada que como uma nuvem se espalhou entre as criaturas, as fazendo guinchar e se encolher de repulsa e náusea. Elas eram como peixes afinal de contas, e seus olhos e narinas sensíveis não toleravam aquela neblina tóxica e fétida.
Aproveitando a distração, a tripulação do Hummingbird fugiu de volta ao convés e escalou os cordames do navio, esperando pelos invasores com as armas apontadas. Quando as criaturas surgiram finalmente, desorientadas em busca de ar fresco, balas e flechas se derramaram sobre suas cabeças, caindo com força sobre elas como uma chuva de outono.
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Parte XXI - Chuva de Outono
Chuva de Outono descia apressadamente até os compartimentos inferiores do navio, se esgueirando entre os companheiros que recarregavam seus arcabuzes com coronha de madeira crua. Acima de sua cabeça, era possível ouvir o som das criaturas-peixe arranhando as tábuas do convés, o que só aumentava a sensação de urgência.
Ela precisava se certificar de que o Maleko estava seguro em seu pequeno aposento. Sabia que Violka ficaria muito triste se algo acontecesse a ele, e também era a única ali que podia explicar ao garoto o que estava acontecendo. Todos a bordo do Hummingbird tinham que ficar juntos para enfrentar aquelas coisas, e isso incluía seu novo amigo.
A tempestade fazia com que o navio balançasse de um lado para o outro, mas a elfa agilmente saltava de lado cada vez que a embarcação se inclinava demais. Esticando seu corpo através da entrada do porão, Chuva de Outono olhou em todo lugar a procura do Maleko, mas ele não estava lá. Um buraco havia sido feito no teto, dando para uma das portinholas mais afastadas do convés inferior.
A navegadora sentiu um nó na garganta e apanhou seu arco das costas, colocando uma das flechas de prontidão para acertar uma das criaturas e fugir depois de encontrar seu amigo. Mas o buraco era pequeno demais para o corpo robusto e escamoso dos híbridos-peixe, e havia sido aberto por algum tipo de explosão concentrada de dentro para fora, sem qualquer rastro de pólvora.
O Maleko havia fugido, era tudo que ela sabia. Tinha voltado para casa talvez, sem se despedir de ninguém. Ou tinha fugido daqueles monstros que atacavam o navio. Será que eles tinham vindo buscá-lo? Era tarde demais agora. Chuva de Outono precisava conter a dúvida e o remorso em seu coração, e voltar a ser a elfa alegre e esperta de sempre.
Com Violka na ilha e Stevo morto, ela era a única chance da tripulação escapar. E ela só conseguiria fazer isso se deixasse as preocupações de lado e voltasse a enxergar tudo como uma grande brincadeira, deixando a imaginação fluir e com ela seus sortilégios. O som dos tiros dos arcabuzes e o gorgolejar das criaturas a guiavam até o palco onde faria seu número especial de magia élfica.
Filha prematura do pântano e da decadência
Desperte de seu torpor e liberte sua essência
O broto murcho na palma da mão da navegadora se abriu com um estalido seco, liberando uma névoa esverdeada que como uma nuvem se espalhou entre as criaturas, as fazendo guinchar e se encolher de repulsa e náusea. Elas eram como peixes afinal de contas, e seus olhos e narinas sensíveis não toleravam aquela neblina tóxica e fétida.
Aproveitando a distração, a tripulação do Hummingbird fugiu de volta ao convés e escalou os cordames do navio, esperando pelos invasores com as armas apontadas. Quando as criaturas surgiram finalmente, desorientadas em busca de ar fresco, balas e flechas se derramaram sobre suas cabeças, caindo com força sobre elas como uma chuva de outono.
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semana 21
sexta-feira, 8 de agosto de 2014
Filho das Profundezas [Semana 20]
Autor: Marco Fischer
Parte XX - Espiral
Um numeroso cardume de tubarões circundava o alto da fenda submarina, como em uma lenta ciranda ritual. Parado no meio do círculo, o Kahuna estava sentado com as pernas cruzadas sobre o dorso do tubarão-baleia sagrado, aguardando pacientemente enquanto respirava na água com a ajuda de um de seus feitiços. Demorou algum tempo até que a volumosa figura do Arauto de Kanaloa surgisse na beira do abismo, agitando seus tentáculos entre as cascatas de areia branca.
O séquito do imenso polvo o acompanhava, brilhando nas profundezas como fogo-fátuo. Trazia consigo suas lanças, mas não havia sinal de ameaça por nenhum dos lados. Se aproximando devagar no dorso do grande peixe, o Kahuna falou diretamente na mente do Arauto, com o olhar firme e sereno de um homem sábio.
-Tentou abocanhar mais do que podia dessa vez, Guardião das Fontes Ocultas.
“Eu tinha um acordo com a criança.” - respondeu o polvo com sua voz ressoando na água - “Mas como uma enguia traiçoeira ele me atacou. A mente dele é como um turbilhão infindável, algo com que nem mesmo eu já havia me deparado antes.”
-Se ele tivesse controle sobre seus poderes, teria subjugado a todos nós – concordou o velho sábio fechando os olhos – Eu senti a mente dele apenas por um instante, mas por pouco não foi o suficiente para que eu também fosse sugado através dela.
“E ainda assim você permitiu que ele fosse levado por aquela mulher”.
-Eu sabia que o Império estava ciente da existência do Maleko, e logo viria atrás dele, como de fato aconteceu. Foi melhor deixa-lo com alguém de confiança do meu povo do que entrega-lo para aqueles que o transformariam em mais uma arma para nos ameaçar.
“Ele não precisa de algo tão pequeno como o Império para ser uma ameaça. Há coisas que você desconhece, Sacerdote das Ondas. A fonte do poder dele é algo tão antigo quanto os nossos próprios deuses. E ao retornar para ela, o Maleko irá reerguer horrores que nem os primeiros de seu povo sonhavam existir”
Muito longe dali, Violka descia por grandes degraus de pedra nas entranhas de Ula-Yhloa. Sua lamparina a óleo iluminava uma série de salões abaixo que pareciam dispostos como o interior de uma concha. No centro da espiral estava um salão circular, com um poço profundo em seu centro. Inúmeras figuras de criaturas marinhas em alto relevo preenchiam as paredes ao redor da capitã enquanto ela descia, as maiores delas retratando lagostas antropomórficas de pé como sentinelas.
Atravessando os salões da espiral um a um, a capitã notava que cada um deles tinha uma pequena alcova com um santuário, onde podia ver estrelas do mar secas com muitas pernas e outras curiosas oferendas retiradas do oceano. O padrão permanecia até o salão central, onde Violka teve que prender a respiração ao revelar com sua luz uma enorme estátua de cristal azul na forma de um homem com cauda de peixe, trazendo em suas mãos um cetro do reino perdido de Lemuria.
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Parte XX - Espiral
Um numeroso cardume de tubarões circundava o alto da fenda submarina, como em uma lenta ciranda ritual. Parado no meio do círculo, o Kahuna estava sentado com as pernas cruzadas sobre o dorso do tubarão-baleia sagrado, aguardando pacientemente enquanto respirava na água com a ajuda de um de seus feitiços. Demorou algum tempo até que a volumosa figura do Arauto de Kanaloa surgisse na beira do abismo, agitando seus tentáculos entre as cascatas de areia branca.
O séquito do imenso polvo o acompanhava, brilhando nas profundezas como fogo-fátuo. Trazia consigo suas lanças, mas não havia sinal de ameaça por nenhum dos lados. Se aproximando devagar no dorso do grande peixe, o Kahuna falou diretamente na mente do Arauto, com o olhar firme e sereno de um homem sábio.
-Tentou abocanhar mais do que podia dessa vez, Guardião das Fontes Ocultas.
“Eu tinha um acordo com a criança.” - respondeu o polvo com sua voz ressoando na água - “Mas como uma enguia traiçoeira ele me atacou. A mente dele é como um turbilhão infindável, algo com que nem mesmo eu já havia me deparado antes.”
-Se ele tivesse controle sobre seus poderes, teria subjugado a todos nós – concordou o velho sábio fechando os olhos – Eu senti a mente dele apenas por um instante, mas por pouco não foi o suficiente para que eu também fosse sugado através dela.
“E ainda assim você permitiu que ele fosse levado por aquela mulher”.
-Eu sabia que o Império estava ciente da existência do Maleko, e logo viria atrás dele, como de fato aconteceu. Foi melhor deixa-lo com alguém de confiança do meu povo do que entrega-lo para aqueles que o transformariam em mais uma arma para nos ameaçar.
“Ele não precisa de algo tão pequeno como o Império para ser uma ameaça. Há coisas que você desconhece, Sacerdote das Ondas. A fonte do poder dele é algo tão antigo quanto os nossos próprios deuses. E ao retornar para ela, o Maleko irá reerguer horrores que nem os primeiros de seu povo sonhavam existir”
Muito longe dali, Violka descia por grandes degraus de pedra nas entranhas de Ula-Yhloa. Sua lamparina a óleo iluminava uma série de salões abaixo que pareciam dispostos como o interior de uma concha. No centro da espiral estava um salão circular, com um poço profundo em seu centro. Inúmeras figuras de criaturas marinhas em alto relevo preenchiam as paredes ao redor da capitã enquanto ela descia, as maiores delas retratando lagostas antropomórficas de pé como sentinelas.
Atravessando os salões da espiral um a um, a capitã notava que cada um deles tinha uma pequena alcova com um santuário, onde podia ver estrelas do mar secas com muitas pernas e outras curiosas oferendas retiradas do oceano. O padrão permanecia até o salão central, onde Violka teve que prender a respiração ao revelar com sua luz uma enorme estátua de cristal azul na forma de um homem com cauda de peixe, trazendo em suas mãos um cetro do reino perdido de Lemuria.
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semana 20
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
Filho das Profundezas [Semana 19]
Autor: Marco Fischer
Parte XIX - Sombras
O céu escurecia enquanto Pesha descia com dificuldade a trilha entre as pedras até a praia de Ula-Yhloa. Uma chuva fina no meio do caminho logo se tornou um temporal, e ele escorregou os últimos metros até embaixo, ficando coberto de lama.
Se levantando e tirando o lodo dos óculos, ele continuou o caminho lentamente, ainda debilitado pelas queimaduras que havia sofrido da mulher que o atacou. Lamentava por não ter seguido Violka, que agora estava no interior das ruínas da ilha, protegida da tempestade.
Era difícil enxergar qualquer coisa no caminho. Pesha estava se guiando quase que por instinto até as rochas onde o bote deveria estar escondido. Tudo ao seu redor era um borrão cinzento, que encharcava suas roupas e tentava derrubá-lo de volta na imundície que subia até seus calcanhares.
Uma placa de madeira surgiu em algum momento, balançando sobre um suporte de ferro. Estava escrita em caracteres orientais, mas era impossível ler qualquer coisa além dos ideogramas de ‘oceano’ e ‘sombra’, que Pesha havia conseguido reconhecer de relance enquanto passava por ela.
Outros objetos estranhos surgiam enquanto Pesha tentava encontrar o caminho que o levaria de volta ao navio, ou seriam apenas seus olhos lhe pregando peças na tempestade? O que uma cadeira de praia estava fazendo ali, ao lado de um quiosque de palha? Era um dirigível que passava ao longe sobre as ondas?
O estudioso jamais soube por quanto tempo ficou vagando pela praia até finalmente encontrar o bote. Certamente havia sido bem mais tempo do que a subida até as ruínas. Se certificando de que o barco estava inteiro, ele engatinhou sobre um dos rochedos para procurar seu navio.
O Hummingbird não estava muito longe, se equilibrando gentilmente sobre as ondas mesmo naquele clima. Porém, havia algo de errado. Ao redor da embarcação, vários pontos luminosos de um azul-elétrico se moviam pela água, e alguns estavam começando a rastejar sobre o casco do navio.
Stevo ajudava a recolher as velas da embarcação quando o grito de um dos tripulantes chamou sua atenção. O pobre marinheiro já se encontrava sob as garras de uma das criaturas-peixe que rapidamente saltavam sobre a amurada, as escamas reluzindo com um brilho azul-elétrico.
Sem Violka para guiar os homens, era seu trabalho repelir o ataque daqueles monstros. Ele ergueu seu robusto cutelo, com um sol gravado na lâmina, e corajosamente organizou os tripulantes do Hummingbird na defesa de sua embarcação. Uma feroz luta se seguiu, com sangue de ambos os lados manchando o convés.
Ferozmente brandindo sua arma contra os híbridos das profundezas, o contramestre não recuou mesmo quando o convés superior já estava completamente tomado. Sozinho, ele segurou a horda de aberrações aquáticas enquanto seus companheiros fugiam para se reagrupar no interior do navio.
-O ushalin zhala sar o kam mangela. – foram as palavras que o último marinheiro a fugir ouviu de Stevo antes dele ser coberto pelas criaturas. Uma frase de seu povo cigano cujo significado era “A sombra se move como o sol a comanda”.
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Parte XIX - Sombras
O céu escurecia enquanto Pesha descia com dificuldade a trilha entre as pedras até a praia de Ula-Yhloa. Uma chuva fina no meio do caminho logo se tornou um temporal, e ele escorregou os últimos metros até embaixo, ficando coberto de lama.
Se levantando e tirando o lodo dos óculos, ele continuou o caminho lentamente, ainda debilitado pelas queimaduras que havia sofrido da mulher que o atacou. Lamentava por não ter seguido Violka, que agora estava no interior das ruínas da ilha, protegida da tempestade.
Era difícil enxergar qualquer coisa no caminho. Pesha estava se guiando quase que por instinto até as rochas onde o bote deveria estar escondido. Tudo ao seu redor era um borrão cinzento, que encharcava suas roupas e tentava derrubá-lo de volta na imundície que subia até seus calcanhares.
Uma placa de madeira surgiu em algum momento, balançando sobre um suporte de ferro. Estava escrita em caracteres orientais, mas era impossível ler qualquer coisa além dos ideogramas de ‘oceano’ e ‘sombra’, que Pesha havia conseguido reconhecer de relance enquanto passava por ela.
Outros objetos estranhos surgiam enquanto Pesha tentava encontrar o caminho que o levaria de volta ao navio, ou seriam apenas seus olhos lhe pregando peças na tempestade? O que uma cadeira de praia estava fazendo ali, ao lado de um quiosque de palha? Era um dirigível que passava ao longe sobre as ondas?
O estudioso jamais soube por quanto tempo ficou vagando pela praia até finalmente encontrar o bote. Certamente havia sido bem mais tempo do que a subida até as ruínas. Se certificando de que o barco estava inteiro, ele engatinhou sobre um dos rochedos para procurar seu navio.
O Hummingbird não estava muito longe, se equilibrando gentilmente sobre as ondas mesmo naquele clima. Porém, havia algo de errado. Ao redor da embarcação, vários pontos luminosos de um azul-elétrico se moviam pela água, e alguns estavam começando a rastejar sobre o casco do navio.
Stevo ajudava a recolher as velas da embarcação quando o grito de um dos tripulantes chamou sua atenção. O pobre marinheiro já se encontrava sob as garras de uma das criaturas-peixe que rapidamente saltavam sobre a amurada, as escamas reluzindo com um brilho azul-elétrico.
Sem Violka para guiar os homens, era seu trabalho repelir o ataque daqueles monstros. Ele ergueu seu robusto cutelo, com um sol gravado na lâmina, e corajosamente organizou os tripulantes do Hummingbird na defesa de sua embarcação. Uma feroz luta se seguiu, com sangue de ambos os lados manchando o convés.
Ferozmente brandindo sua arma contra os híbridos das profundezas, o contramestre não recuou mesmo quando o convés superior já estava completamente tomado. Sozinho, ele segurou a horda de aberrações aquáticas enquanto seus companheiros fugiam para se reagrupar no interior do navio.
-O ushalin zhala sar o kam mangela. – foram as palavras que o último marinheiro a fugir ouviu de Stevo antes dele ser coberto pelas criaturas. Uma frase de seu povo cigano cujo significado era “A sombra se move como o sol a comanda”.
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semana 19
sexta-feira, 25 de julho de 2014
Filho das Profundezas [Semana 18]
Autor: Marco Fischer
Parte XVIII - Água-Viva
-Como conseguiu cortar meus braços com esse alfinete? – sibilou a oriental da Ordem do Peixe Diabo enquanto novos tentáculos cresciam através das largas mangas de seu vestido. Violka desviava com graciosidade da floresta de cipós venenosos que tentava agarrar seu corpo, enquanto Pesha apenas observava com lágrimas nos olhos, tremendo com a dor das queimaduras de água-viva.
-Antes de te responder, é bom que pense em uma maneira de me dar satisfação por ter machucado um membro de minha tripulação, monstrenga. Ou vou cortar bem mais do que seus braços. – Violka não estava só provocando dessa vez. Ela estava séria sobre isso. Sua tripulação era como sua família, e machucar aqueles que compartilhavam de seu caminho era uma ofensa difícil de perdoar.
-Vocês estão de posse de uma criatura que nos pertence! – gritou a mulher dos tentáculos enquanto os girava e sacudia tentando acertar a capitã, de forma parecida com a de alguns artistas marciais quando usavam longos chicotes ou fitas.
-Ele não é posse de ninguém! – rebateu Violka após esquivar dos golpes com uma veloz acrobacia, dardejando como um colibri até conseguir se aproximar mais e cortar os dois feixes de tentáculos quase rentes às mangas da outra mulher. – Seu veneno pode ser potente, bruxa do mar. Mas seus braços são tão frágeis que se desmancham até mesmo com a batida de asas de um passarinho.
-Patético! Então acha que pode nos enfrentar e adotá-lo como um órfão qualquer das docas? Porque você acha que pode fazer isso? Capricho? Ignorância? Ou você acha que é algum tipo de heroína o salvando de um destino que nem mesmo compreende?
Violka apenas ergueu a cabeça e colocou a ponta da espada sobre o pescoço da bruxa do mar, sorrindo enquanto respondia.
-Nenhuma dessas coisas. Para mim, ver a expressão de frustração no rosto de alguém que julga poder controlar outra vida é o suficiente.
Violka sentiu algo se mover sob a ponta de sua lâmina, e conseguiu recuar bem a tempo de se proteger do jato de gosma ácida que a oriental cuspiu em sua direção. Aproveitando a distração, a mulher fugiu para o interior da construção na ilha, desaparecendo na escuridão.
-Pesha. Você deve voltar ao navio. – disse a capitã embainhando a arma e olhando com preocupação para o rapaz ferido. – Eu vou segui-la e descobrir o que afinal está acontecendo aqui.
O naturalista assentiu com a cabeça, terminando de abrir sua bolsa e derramando vinagre sobre as queimaduras para neutralizar o veneno. Cada movimento era uma careta de dor, e ele definitivamente só atrasaria Violka se resolvesse ir com ela.
-Só espero que sobre algo que eu possa apresentar para a academia. Já foi muito arriscado vir até aqui. Sair com as mãos abanando seria uma catástrofe científica.
Violka apenas sorriu e balançou a cabeça enquanto ele descia a trilha de volta para a praia. Então respirou fundo e adentrou as ruínas de Ula-Yhloa, preparada para lidar por si mesma com o que quer que estivesse esperando lá dentro.
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Parte XVIII - Água-Viva
-Como conseguiu cortar meus braços com esse alfinete? – sibilou a oriental da Ordem do Peixe Diabo enquanto novos tentáculos cresciam através das largas mangas de seu vestido. Violka desviava com graciosidade da floresta de cipós venenosos que tentava agarrar seu corpo, enquanto Pesha apenas observava com lágrimas nos olhos, tremendo com a dor das queimaduras de água-viva.
-Antes de te responder, é bom que pense em uma maneira de me dar satisfação por ter machucado um membro de minha tripulação, monstrenga. Ou vou cortar bem mais do que seus braços. – Violka não estava só provocando dessa vez. Ela estava séria sobre isso. Sua tripulação era como sua família, e machucar aqueles que compartilhavam de seu caminho era uma ofensa difícil de perdoar.
-Vocês estão de posse de uma criatura que nos pertence! – gritou a mulher dos tentáculos enquanto os girava e sacudia tentando acertar a capitã, de forma parecida com a de alguns artistas marciais quando usavam longos chicotes ou fitas.
-Ele não é posse de ninguém! – rebateu Violka após esquivar dos golpes com uma veloz acrobacia, dardejando como um colibri até conseguir se aproximar mais e cortar os dois feixes de tentáculos quase rentes às mangas da outra mulher. – Seu veneno pode ser potente, bruxa do mar. Mas seus braços são tão frágeis que se desmancham até mesmo com a batida de asas de um passarinho.
-Patético! Então acha que pode nos enfrentar e adotá-lo como um órfão qualquer das docas? Porque você acha que pode fazer isso? Capricho? Ignorância? Ou você acha que é algum tipo de heroína o salvando de um destino que nem mesmo compreende?
Violka apenas ergueu a cabeça e colocou a ponta da espada sobre o pescoço da bruxa do mar, sorrindo enquanto respondia.
-Nenhuma dessas coisas. Para mim, ver a expressão de frustração no rosto de alguém que julga poder controlar outra vida é o suficiente.
Violka sentiu algo se mover sob a ponta de sua lâmina, e conseguiu recuar bem a tempo de se proteger do jato de gosma ácida que a oriental cuspiu em sua direção. Aproveitando a distração, a mulher fugiu para o interior da construção na ilha, desaparecendo na escuridão.
-Pesha. Você deve voltar ao navio. – disse a capitã embainhando a arma e olhando com preocupação para o rapaz ferido. – Eu vou segui-la e descobrir o que afinal está acontecendo aqui.
O naturalista assentiu com a cabeça, terminando de abrir sua bolsa e derramando vinagre sobre as queimaduras para neutralizar o veneno. Cada movimento era uma careta de dor, e ele definitivamente só atrasaria Violka se resolvesse ir com ela.
-Só espero que sobre algo que eu possa apresentar para a academia. Já foi muito arriscado vir até aqui. Sair com as mãos abanando seria uma catástrofe científica.
Violka apenas sorriu e balançou a cabeça enquanto ele descia a trilha de volta para a praia. Então respirou fundo e adentrou as ruínas de Ula-Yhloa, preparada para lidar por si mesma com o que quer que estivesse esperando lá dentro.
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Marco Fischer,
semana 18
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Filho das Profundezas [Semana 17]
Autor: Marco Fischer
Parte XVII - Anfitriã
-A Ordem do Peixe Diabo? – murmurou Pesha, buscando em sua mente o que sabia sobre esse nome. Não lembrava mais do que breves anotações, sobre um grupo do Império Ming que afirmava derivar da Ordem Esotérica de Dagon, um culto místico espalhado por todo o mundo que não era levado a sério como doutrina, mas possuía em suas fileiras criaturas e fórmulas mágicas dignas de curiosidade e espanto científico.
Eles usarem aquela ilha isolada como base não era uma grande surpresa na verdade, considerando que Ula-Yhloa ficava entre as Ilhas Kupuna e as Nações do Oriente. Mas era sem dúvida algo desagradável de se descobrir, afinal se tratava de gente lunática e perigosa. Receoso, Pesha recuou se protegendo atrás da capitã. Ele queria uma tranquila pesquisa de campo naquele lugar, não uma aventura contra cultistas insanos.
Violka, por sua vez, permanecia em posição de guarda, estudando a bizarra anfitriã com o olhar. Ela já parecia preparada para aquele encontro, e quando falou não havia nenhuma comoção em sua voz.
-Então é aqui que fica a toca onde estavam se escondendo. Se tivessem me avisado eu poderia ter mandado uma carta antes, se bem que duvido que o serviço postal chegue até aqui... – a capitã sorria enquanto provocava, fazendo com que a oriental ficasse séria e cruzasse os braços, encarando Violka com descrença.
-Pelo visto a nossa presença nos últimos portos em que esteve não passou despercebida. Admiro sua perspicácia, principalmente por ter decifrado o “mapa” que a trouxe até aqui, mas seu papel nessa história é pequeno como um grão de mostarda, capitã. Apenas devolva o que é nosso e iremos poupar sua tripulação.
Pesha arrumou os óculos em seu rosto confuso. Desde quando a Ordem os estava vigiando? Desde o início da busca de Violka pelo Maleko e por Ula-Yhloa, talvez? Há quanto tempo? Meses? E era o Maleko que queriam de volta? Por isso ele estava fugindo? Não teve tempo para outras perguntas antes que a capitã puxasse a espada e algo viesse em sua direção, agarrando seu pescoço.
Uma dor lancinante e ardida percorreu seu corpo como um choque elétrico. Era como várias finas agulhas penetrando sua carne de uma só vez e fazendo seus músculos convulsionarem. Lutando para respirar, ele viu que aquilo que o estava segurando era um tentáculo azulado e transparente, saído de uma das mangas do vestido da mulher. Por reflexo, ele agarrou o apêndice gelatinoso e a mesma sensação dolorosa percorreu seus dedos. Pesha gritou e caiu de lado, mas quando se debateu o tentáculo afrouxou, e ele facilmente se libertou do aperto.
Ainda deitado e estremecendo com a queimadura venenosa, ele viu que o tentáculo jazia no chão decepado, cortado pela fina espada de Violka. Outro apêndice, que provavelmente havia sido lançado contra a capitã, também havia sido arrancado de sua dona. Sem parecer se incomodar com os braços que havia perdido, a oriental lançou uma saraivada de novos tentáculos, enquanto a capitã investia contra ela com os olhos em brasa.
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Parte XVII - Anfitriã
-A Ordem do Peixe Diabo? – murmurou Pesha, buscando em sua mente o que sabia sobre esse nome. Não lembrava mais do que breves anotações, sobre um grupo do Império Ming que afirmava derivar da Ordem Esotérica de Dagon, um culto místico espalhado por todo o mundo que não era levado a sério como doutrina, mas possuía em suas fileiras criaturas e fórmulas mágicas dignas de curiosidade e espanto científico.
Eles usarem aquela ilha isolada como base não era uma grande surpresa na verdade, considerando que Ula-Yhloa ficava entre as Ilhas Kupuna e as Nações do Oriente. Mas era sem dúvida algo desagradável de se descobrir, afinal se tratava de gente lunática e perigosa. Receoso, Pesha recuou se protegendo atrás da capitã. Ele queria uma tranquila pesquisa de campo naquele lugar, não uma aventura contra cultistas insanos.
Violka, por sua vez, permanecia em posição de guarda, estudando a bizarra anfitriã com o olhar. Ela já parecia preparada para aquele encontro, e quando falou não havia nenhuma comoção em sua voz.
-Então é aqui que fica a toca onde estavam se escondendo. Se tivessem me avisado eu poderia ter mandado uma carta antes, se bem que duvido que o serviço postal chegue até aqui... – a capitã sorria enquanto provocava, fazendo com que a oriental ficasse séria e cruzasse os braços, encarando Violka com descrença.
-Pelo visto a nossa presença nos últimos portos em que esteve não passou despercebida. Admiro sua perspicácia, principalmente por ter decifrado o “mapa” que a trouxe até aqui, mas seu papel nessa história é pequeno como um grão de mostarda, capitã. Apenas devolva o que é nosso e iremos poupar sua tripulação.
Pesha arrumou os óculos em seu rosto confuso. Desde quando a Ordem os estava vigiando? Desde o início da busca de Violka pelo Maleko e por Ula-Yhloa, talvez? Há quanto tempo? Meses? E era o Maleko que queriam de volta? Por isso ele estava fugindo? Não teve tempo para outras perguntas antes que a capitã puxasse a espada e algo viesse em sua direção, agarrando seu pescoço.
Uma dor lancinante e ardida percorreu seu corpo como um choque elétrico. Era como várias finas agulhas penetrando sua carne de uma só vez e fazendo seus músculos convulsionarem. Lutando para respirar, ele viu que aquilo que o estava segurando era um tentáculo azulado e transparente, saído de uma das mangas do vestido da mulher. Por reflexo, ele agarrou o apêndice gelatinoso e a mesma sensação dolorosa percorreu seus dedos. Pesha gritou e caiu de lado, mas quando se debateu o tentáculo afrouxou, e ele facilmente se libertou do aperto.
Ainda deitado e estremecendo com a queimadura venenosa, ele viu que o tentáculo jazia no chão decepado, cortado pela fina espada de Violka. Outro apêndice, que provavelmente havia sido lançado contra a capitã, também havia sido arrancado de sua dona. Sem parecer se incomodar com os braços que havia perdido, a oriental lançou uma saraivada de novos tentáculos, enquanto a capitã investia contra ela com os olhos em brasa.
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quinta-feira, 10 de julho de 2014
Filho das Profundezas [Semana 16]
Autor: Marco Fischer
Parte XVI - Limo
As praias de Ula-Yhloa possuíam uma areia fina e negra, que escorria lentamente entre os pés de Violka e Pesha enquanto eles começavam a explorar a ilha. Tudo naquele lugar parecia úmido e um pouco morto. Carcaças de estranhos animais marinhos se espalhavam pelas rochas rugosas do litoral, banhadas pelo mar mesclado de verde e roxo, que mais de perto parecia ter uma textura gosmenta.
Enquanto procuravam um lugar seguro para esconder o bote que os havia levado até ali, a capitã e o estudioso perceberam que abaixo daquelas águas havia imensos degraus de pedra que seguiam abaixo até sumir de vista nas profundezas. Era como se a ilha fosse o topo de uma antiga e gigantesca estrutura de pedra, engolida pelo oceano e esquecida por seus próprios construtores.
-Eu jamais vi um lugar como esse – disse Pesha enquanto examinava o cadáver murcho de algo que parecia ser um lula com múltiplos olhos opacos e pequenos. – É como se o mar estivesse contaminado por algo antinatural, mas não percebo nenhum sinal de ocupação recente que pudesse ter causado isso.
-Seja qual for o segredo do mapa de nosso hóspede, só pode estar no coração da ilha. – respondeu Violka terminando de colocar o bote entre dois rochedos. – Não tem nada aqui além de areia e essas coisas nojentas.
Subitamente, um movimento chamou a atenção dos dois. Próximo à construção em forma de trapézio no centro da ilha, uma figura de vestido os observava e agora dava as costas e desaparecia. Violka apenas acenou com a cabeça para Pesha e os dois seguiram para onde ela estava, embora o naturalista estivesse um pouco amedrontado com a perspectiva de encontrar um nativo daquele lugar tenebroso.
O caminho para o interior de Ula-Yhloa seguia por encostas onde não crescia nenhum tipo de vegetação, apenas um lodo verde-claro e escorregadio que tornava a trilha um pouco mais difícil. Chegando mais perto, avistaram grandes figuras sagradas entalhadas nos paredões de pedra, do que parecia ser uma criatura em forma de lagosta. Violka se lembrou dos Deuses Tubarão das Ilhas Kupuna, e se perguntou se os nativos do arquipélago não poderiam ser descendentes do povo que um dia havia habitado aquela ilha, com sua devoção pelas criaturas marinhas.
A figura de vestido os esperava diante de um portal de pedra que conduzia para o interior do grande trapézio, entalhado de forma grotesca como um amálgama de várias carapaças de crustáceos. Quando ela se virou, Violka e Pesha encararam o rosto de uma mulher oriental, com os olhos adornados por uma maquiagem púrpura e os lábios tingidos de azul-escuro. Sua cabeça estava coberta por uma água-viva que de longe parecia um chapéu elegante, mas agora causava repulsa com seus tentáculos translúcidos se retorcendo devagar. Mesmo o vestido da mulher parecia gelatinoso, como se não fosse feito de tecido e sim de algum material orgânico e pulsante.
-A Ordem do Peixe-Diabo lhes dá as boas vindas – disse ela com uma voz melodiosa, mas que deixava escapar um hálito venenoso.
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Parte XVI - Limo
As praias de Ula-Yhloa possuíam uma areia fina e negra, que escorria lentamente entre os pés de Violka e Pesha enquanto eles começavam a explorar a ilha. Tudo naquele lugar parecia úmido e um pouco morto. Carcaças de estranhos animais marinhos se espalhavam pelas rochas rugosas do litoral, banhadas pelo mar mesclado de verde e roxo, que mais de perto parecia ter uma textura gosmenta.
Enquanto procuravam um lugar seguro para esconder o bote que os havia levado até ali, a capitã e o estudioso perceberam que abaixo daquelas águas havia imensos degraus de pedra que seguiam abaixo até sumir de vista nas profundezas. Era como se a ilha fosse o topo de uma antiga e gigantesca estrutura de pedra, engolida pelo oceano e esquecida por seus próprios construtores.
-Eu jamais vi um lugar como esse – disse Pesha enquanto examinava o cadáver murcho de algo que parecia ser um lula com múltiplos olhos opacos e pequenos. – É como se o mar estivesse contaminado por algo antinatural, mas não percebo nenhum sinal de ocupação recente que pudesse ter causado isso.
-Seja qual for o segredo do mapa de nosso hóspede, só pode estar no coração da ilha. – respondeu Violka terminando de colocar o bote entre dois rochedos. – Não tem nada aqui além de areia e essas coisas nojentas.
Subitamente, um movimento chamou a atenção dos dois. Próximo à construção em forma de trapézio no centro da ilha, uma figura de vestido os observava e agora dava as costas e desaparecia. Violka apenas acenou com a cabeça para Pesha e os dois seguiram para onde ela estava, embora o naturalista estivesse um pouco amedrontado com a perspectiva de encontrar um nativo daquele lugar tenebroso.
O caminho para o interior de Ula-Yhloa seguia por encostas onde não crescia nenhum tipo de vegetação, apenas um lodo verde-claro e escorregadio que tornava a trilha um pouco mais difícil. Chegando mais perto, avistaram grandes figuras sagradas entalhadas nos paredões de pedra, do que parecia ser uma criatura em forma de lagosta. Violka se lembrou dos Deuses Tubarão das Ilhas Kupuna, e se perguntou se os nativos do arquipélago não poderiam ser descendentes do povo que um dia havia habitado aquela ilha, com sua devoção pelas criaturas marinhas.
A figura de vestido os esperava diante de um portal de pedra que conduzia para o interior do grande trapézio, entalhado de forma grotesca como um amálgama de várias carapaças de crustáceos. Quando ela se virou, Violka e Pesha encararam o rosto de uma mulher oriental, com os olhos adornados por uma maquiagem púrpura e os lábios tingidos de azul-escuro. Sua cabeça estava coberta por uma água-viva que de longe parecia um chapéu elegante, mas agora causava repulsa com seus tentáculos translúcidos se retorcendo devagar. Mesmo o vestido da mulher parecia gelatinoso, como se não fosse feito de tecido e sim de algum material orgânico e pulsante.
-A Ordem do Peixe-Diabo lhes dá as boas vindas – disse ela com uma voz melodiosa, mas que deixava escapar um hálito venenoso.
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sexta-feira, 4 de julho de 2014
Filho das Profundezas [Semana 15]
Autor: Marco Fischer
Parte XV - Ula-Yhloa
Várias semanas haviam se passado desde que o Hummingbird havia partido das Ilhas Kupuna. Durante esse tempo, Violka e Pesha, os únicos capazes de conversar com o Maleko em seu idioma aquático, tentaram descobrir mais sobre sua origem, sem muito progresso. O garoto não se lembrava de sequer já ter visto alguém como ele, e pelo que Pesha verificara em seus livros, não havia qualquer indicação de qual poderia ser sua espécie, mesmo com tantas raças marítimas catalogadas pelos naturalistas do Império.
Todo o interesse dos Arautos do Vapor fazia mais sentido para ele agora, assim como o de sua capitã. Porém, ao contrário de Faulkner, Violka via o garoto-peixe como um indivíduo a ser ajudado, não uma simples cobaia a ser estudada. Pesha não podia deixar de admirar a nobreza de coração da mulher, embora seu bom tratamento estivesse dando muito resultado. De certo, Violka também estava interessada na ilha de Ula-Yhloa, para onde a misteriosa criatura parecia conduzir, e lá ele com certeza encontraria material digno para uma publicação científica. A tripulação iria protegê-lo de qualquer perigo, e quando retornasse para a Real Academia o Império teria que aceitar respeitá-lo como um estudioso de origem cigana.
Foi em uma manhã de Setembro que Chuva de Outono finalmente alcançou as coordenadas do mapa estelar e avistou a ilha na distância. A elfa estava empolgada em finalmente conhecer o que poderia ser a casa de seu novo amigo. Talvez houvesse outros como ele lá, escondidos do resto do mundo naquele lugar isolado. Eles eram espertos, ela pensou com um pouco de tristeza, lembrando-se da degradação e escravidão que seu povo havia sofrido nas mãos das nações humanas. Haviam pessoas que eram boas como Violka, mas apesar de ter coberto as marcas com os desenhos bonitos de suas tatuagens, as cicatrizes do que havia passado no cativeiro antes de ser resgatada ainda doíam na sua pele e na sua alma.
De longe, Ula-Yhloa já chamava atenção pela estranha formação rochosa que se destacava em seu centro. Era um bloco de pedra em forma de trapézio, desgastado pela ação do vento e coberto por algo que na distância parecia vegetação. Rochedos de aparência rugosa o cercavam na água, que tinha uma cor entre o esverdeado e o púrpura. Não havia nenhum sinal de aves marinhas fazendo seus ninhos ali, o que era estranho, mas ao entrarem em águas mais rasas os tripulantes avistaram cardumes inteiros de águas-vivas e arraias nadando entre corais de aspecto esbranquiçado.
Agora que o Hummingbird estava mais uma vez velejando pela água em busca de um lugar para aportar, Violka julgou perigoso avançar e decidiu baixar âncora ali mesmo, decidindo avançar com Pesha em um bote até a ilha para fazer um reconhecimento. A capitã preferiu não preocupar os demais com algo de que não estava certa, mas havia coisas em Ula-Yhloa que pareciam simplesmente erradas. Ela não sabia descrever o que era, mas o fato é que aquele lugar definitivamente não conseguia lhe passar uma boa impressão.
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Parte XV - Ula-Yhloa
Várias semanas haviam se passado desde que o Hummingbird havia partido das Ilhas Kupuna. Durante esse tempo, Violka e Pesha, os únicos capazes de conversar com o Maleko em seu idioma aquático, tentaram descobrir mais sobre sua origem, sem muito progresso. O garoto não se lembrava de sequer já ter visto alguém como ele, e pelo que Pesha verificara em seus livros, não havia qualquer indicação de qual poderia ser sua espécie, mesmo com tantas raças marítimas catalogadas pelos naturalistas do Império.
Todo o interesse dos Arautos do Vapor fazia mais sentido para ele agora, assim como o de sua capitã. Porém, ao contrário de Faulkner, Violka via o garoto-peixe como um indivíduo a ser ajudado, não uma simples cobaia a ser estudada. Pesha não podia deixar de admirar a nobreza de coração da mulher, embora seu bom tratamento estivesse dando muito resultado. De certo, Violka também estava interessada na ilha de Ula-Yhloa, para onde a misteriosa criatura parecia conduzir, e lá ele com certeza encontraria material digno para uma publicação científica. A tripulação iria protegê-lo de qualquer perigo, e quando retornasse para a Real Academia o Império teria que aceitar respeitá-lo como um estudioso de origem cigana.
Foi em uma manhã de Setembro que Chuva de Outono finalmente alcançou as coordenadas do mapa estelar e avistou a ilha na distância. A elfa estava empolgada em finalmente conhecer o que poderia ser a casa de seu novo amigo. Talvez houvesse outros como ele lá, escondidos do resto do mundo naquele lugar isolado. Eles eram espertos, ela pensou com um pouco de tristeza, lembrando-se da degradação e escravidão que seu povo havia sofrido nas mãos das nações humanas. Haviam pessoas que eram boas como Violka, mas apesar de ter coberto as marcas com os desenhos bonitos de suas tatuagens, as cicatrizes do que havia passado no cativeiro antes de ser resgatada ainda doíam na sua pele e na sua alma.
De longe, Ula-Yhloa já chamava atenção pela estranha formação rochosa que se destacava em seu centro. Era um bloco de pedra em forma de trapézio, desgastado pela ação do vento e coberto por algo que na distância parecia vegetação. Rochedos de aparência rugosa o cercavam na água, que tinha uma cor entre o esverdeado e o púrpura. Não havia nenhum sinal de aves marinhas fazendo seus ninhos ali, o que era estranho, mas ao entrarem em águas mais rasas os tripulantes avistaram cardumes inteiros de águas-vivas e arraias nadando entre corais de aspecto esbranquiçado.
Agora que o Hummingbird estava mais uma vez velejando pela água em busca de um lugar para aportar, Violka julgou perigoso avançar e decidiu baixar âncora ali mesmo, decidindo avançar com Pesha em um bote até a ilha para fazer um reconhecimento. A capitã preferiu não preocupar os demais com algo de que não estava certa, mas havia coisas em Ula-Yhloa que pareciam simplesmente erradas. Ela não sabia descrever o que era, mas o fato é que aquele lugar definitivamente não conseguia lhe passar uma boa impressão.
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semana 15
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Filho das Profundezas [Semana 14]
Autor: Marco Fischer
Parte XIV - Clarão
Faulkner tentou limpar o sangue da lente de seu olho-luneta, mas tudo que conseguiu foi deixá-la embaçada. Com seu olho bom prejudicado pela laceração em seu rosto, essa era toda a visão que tinha agora. Tudo que conseguia enxergar eram as lâmpadas no convés e a luminosidade azul-elétrica daquelas bestas que se aglomeravam na proa, depois de terem atacado seu navio de surpresa.
Um súbito clarão ofuscou a lente enquanto um som explosivo quase estourou seus tímpanos. Os tripulantes sobreviventes no castelo de popa disparavam mais uma vez contra as criaturas que tentavam avançar, e misturado ao cheiro da pólvora vinha o fedor pegajoso de peixe velho e algas podres. Faulkner nunca havia se deparado com seres tão agressivos e estranhos.
Agora que a ferida em sua face começava a parar de sangrar, ele conseguia enxergar melhor a situação. Os monstros já ocupavam toda a parte central do navio, roçando uns contra os outros enquanto devoravam os marinheiros caídos com suas cabeçorras de peixe. Os olhos eram cinzentos e vazios, e as escamas negras como a noite que os cobria, com exceção dos pontos em que a intensa bioluminescência azul reluzia o couro oleoso e pulsante.
Enfraquecido pela perda de sangue, o capitão dos Arautos do Vapor tremia para se manter de pé e sequer conseguia empunhar o próprio rifle, que estava caído ao seu lado. Havia algo naquelas coisas que inquietava seu espírito além da matança que causavam. Pareciam ter saído de um pesadelo, mas ao mesmo tempo em que provocavam horror havia uma estranha familiaridade que impedia que mantivesse o olhar por muito tempo.
Mesmo para um homem racional como Faulkner, ver aquelas criaturas lutando contra sua tripulação era algo que trazia as mais terríveis suposições. Seu conhecimento científico, na verdade, parecia estar lhe pregando uma peça, atribuindo características humanas àqueles seres marinhos. Eles não eram simplesmente bípedes e desajeitados como outros monstros que habitavam o oceano. Para a mente do capitão, a fluidez com que se moviam na superfície só podia ser fruto de algum tipo de cruzamento com a raça humana.
Paralisado de fraqueza e terror, o capitão teria ficado ali diante de sua cabine até o inevitável fim se não fosse despertado por George, o mecânico moreno e gordinho que surgia sujo de fuligem da sala de máquinas e agarrava seu braço enquanto falava apressado.
-Capitão, a gente trancou as saídas de vapor da caldeira e colocamos pra funcionar no máximo. Vamos estourar o navio junto com essas coisas, então é melhor correr pra água!
Antes que tivesse tempo de responder, Faulkner já estava sendo praticamente jogado em um dos botes do navio, enquanto os sobreviventes escorregavam pelas cordas e correntes a seu encontro. A explosão veio antes de o bote chegar à água, mandando várias das criaturas pelos ares, enquanto as restantes fugiam para as profundezas.
-O que eram essas coisas? – perguntou George, o rosto iluminado pelas chamas.
-Infelizmente eu desconheço. – respondeu Faulkner - Mas desconfio que tenha a ver com aquela cigana infame!
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Parte XIV - Clarão
Faulkner tentou limpar o sangue da lente de seu olho-luneta, mas tudo que conseguiu foi deixá-la embaçada. Com seu olho bom prejudicado pela laceração em seu rosto, essa era toda a visão que tinha agora. Tudo que conseguia enxergar eram as lâmpadas no convés e a luminosidade azul-elétrica daquelas bestas que se aglomeravam na proa, depois de terem atacado seu navio de surpresa.
Um súbito clarão ofuscou a lente enquanto um som explosivo quase estourou seus tímpanos. Os tripulantes sobreviventes no castelo de popa disparavam mais uma vez contra as criaturas que tentavam avançar, e misturado ao cheiro da pólvora vinha o fedor pegajoso de peixe velho e algas podres. Faulkner nunca havia se deparado com seres tão agressivos e estranhos.
Agora que a ferida em sua face começava a parar de sangrar, ele conseguia enxergar melhor a situação. Os monstros já ocupavam toda a parte central do navio, roçando uns contra os outros enquanto devoravam os marinheiros caídos com suas cabeçorras de peixe. Os olhos eram cinzentos e vazios, e as escamas negras como a noite que os cobria, com exceção dos pontos em que a intensa bioluminescência azul reluzia o couro oleoso e pulsante.
Enfraquecido pela perda de sangue, o capitão dos Arautos do Vapor tremia para se manter de pé e sequer conseguia empunhar o próprio rifle, que estava caído ao seu lado. Havia algo naquelas coisas que inquietava seu espírito além da matança que causavam. Pareciam ter saído de um pesadelo, mas ao mesmo tempo em que provocavam horror havia uma estranha familiaridade que impedia que mantivesse o olhar por muito tempo.
Mesmo para um homem racional como Faulkner, ver aquelas criaturas lutando contra sua tripulação era algo que trazia as mais terríveis suposições. Seu conhecimento científico, na verdade, parecia estar lhe pregando uma peça, atribuindo características humanas àqueles seres marinhos. Eles não eram simplesmente bípedes e desajeitados como outros monstros que habitavam o oceano. Para a mente do capitão, a fluidez com que se moviam na superfície só podia ser fruto de algum tipo de cruzamento com a raça humana.
Paralisado de fraqueza e terror, o capitão teria ficado ali diante de sua cabine até o inevitável fim se não fosse despertado por George, o mecânico moreno e gordinho que surgia sujo de fuligem da sala de máquinas e agarrava seu braço enquanto falava apressado.
-Capitão, a gente trancou as saídas de vapor da caldeira e colocamos pra funcionar no máximo. Vamos estourar o navio junto com essas coisas, então é melhor correr pra água!
Antes que tivesse tempo de responder, Faulkner já estava sendo praticamente jogado em um dos botes do navio, enquanto os sobreviventes escorregavam pelas cordas e correntes a seu encontro. A explosão veio antes de o bote chegar à água, mandando várias das criaturas pelos ares, enquanto as restantes fugiam para as profundezas.
-O que eram essas coisas? – perguntou George, o rosto iluminado pelas chamas.
-Infelizmente eu desconheço. – respondeu Faulkner - Mas desconfio que tenha a ver com aquela cigana infame!
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semana 14
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Filho das Profundezas [Semana 13]
Autor: Marco Fischer
Parte XIII - Constelação
-Ainda não se perguntaram por que as estrelas do céu estariam nos olhos de alguém que surgiu de um lugar tão profundo e escuro? – perguntou Violka enquanto observava satisfeita o esboço que Pesha havia desenhado do rosto do Maleko.
Stevo e Pesha se entreolharam confusos. Chuva de Outono apenas moveu suas orelhas de leve, observando a capitã com uma expressão de curiosidade. O silêncio permaneceu por alguns instantes até que o contramestre coçou a cabeça sem graça e murmurou em sua voz grave e melodiosa.
-Isso foi poético, Capitã. Mas ainda não entendo o que tem a ver com nossa...
-Não estou sendo poética. – interrompeu Violka com um sorriso, estendendo o papel sobre a mesa e dando um olhar de cumplicidade para a elfa, que subitamente se alarmou como se tivesse sido pega sonhando acordada.
-Você não pode estar dizendo que... – falou rapidamente a navegadora, espantada com o pensamento que havia concluído ao mesmo tempo em que parecia estar tentando se desculpar.
-Sim, é isso que estou dizendo! Dê uma olhada mais de perto!
A elfa tocou o papel e lentamente passou o indicador pelos pontos brancos que representavam as estranhas marcas luminosas nos olhos do Maleko. Seus próprios olhos se arregalaram e ela rapidamente pegou na bolsa de cânhamo que trazia consigo um antigo pergaminho druídico em pele de bezerro e um compasso náutico prateado, moldado de forma graciosa como a cabeça de uma garça oriental.
-Os olhos dele... Isso não apenas se parece com estrelas... Eles copiam perfeitamente um pedaço das constelações do céu!
-Com licença, Senhorita Outono. – falou Pesha incrédulo – Mas se isso é mesmo uma representação específica da posição das estrelas no céu a partir de um determinado ponto, seria correto dizer que...
-Sim! É um mapa! – a elfa abriu um largo sorriso, olhando para Violka como uma criança que acabara de resolver um quebra-cabeça complicado.
-Exatamente! – afirmou a capitã com orgulho – Agora podemos finalmente parar com esse diálogo enrolado e dramático!
Os outros na cabine se permitiram um sorriso, mas ainda restavam dúvidas. Pesha foi o primeiro a não conseguir contê-las.
-Isso foi afortunado! Então temos um mapa bastante incomum em nossas mãos. Mas para onde você acredita que ele irá nos levar, capitã?
Violka assentiu para Chuva de Outono e a elfa rapidamente entendeu o recado, estendendo uma carta náutica das águas onde estavam sobre a mesa já bastante ocupada. A navegadora comparou então o desenho com o mapa estelar dos druidas no pergaminho de papel velino, que por sua vez lhe ajudou a encontrar uma área distante no meio do oceano ao oeste, uma região isolada e quase inexplorada.
-Se eu estiver correta, a rota apontada pelas estrelas nos olhos do Maleko nos levará diretamente para a cidade perdida de Ula-Yhloa! – anunciou a capitã com um brilho no olhar.
-Ula-Yhloa? – indagou Pesha com espanto. – Apenas o Lendário Capitão Roberts já afirmou ter estado lá!
-E nós não vamos deixar que ele seja o único a ter esse privilégio, hã? – concluiu Violka com audácia.
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Parte XIII - Constelação
-Ainda não se perguntaram por que as estrelas do céu estariam nos olhos de alguém que surgiu de um lugar tão profundo e escuro? – perguntou Violka enquanto observava satisfeita o esboço que Pesha havia desenhado do rosto do Maleko.
Stevo e Pesha se entreolharam confusos. Chuva de Outono apenas moveu suas orelhas de leve, observando a capitã com uma expressão de curiosidade. O silêncio permaneceu por alguns instantes até que o contramestre coçou a cabeça sem graça e murmurou em sua voz grave e melodiosa.
-Isso foi poético, Capitã. Mas ainda não entendo o que tem a ver com nossa...
-Não estou sendo poética. – interrompeu Violka com um sorriso, estendendo o papel sobre a mesa e dando um olhar de cumplicidade para a elfa, que subitamente se alarmou como se tivesse sido pega sonhando acordada.
-Você não pode estar dizendo que... – falou rapidamente a navegadora, espantada com o pensamento que havia concluído ao mesmo tempo em que parecia estar tentando se desculpar.
-Sim, é isso que estou dizendo! Dê uma olhada mais de perto!
A elfa tocou o papel e lentamente passou o indicador pelos pontos brancos que representavam as estranhas marcas luminosas nos olhos do Maleko. Seus próprios olhos se arregalaram e ela rapidamente pegou na bolsa de cânhamo que trazia consigo um antigo pergaminho druídico em pele de bezerro e um compasso náutico prateado, moldado de forma graciosa como a cabeça de uma garça oriental.
-Os olhos dele... Isso não apenas se parece com estrelas... Eles copiam perfeitamente um pedaço das constelações do céu!
-Com licença, Senhorita Outono. – falou Pesha incrédulo – Mas se isso é mesmo uma representação específica da posição das estrelas no céu a partir de um determinado ponto, seria correto dizer que...
-Sim! É um mapa! – a elfa abriu um largo sorriso, olhando para Violka como uma criança que acabara de resolver um quebra-cabeça complicado.
-Exatamente! – afirmou a capitã com orgulho – Agora podemos finalmente parar com esse diálogo enrolado e dramático!
Os outros na cabine se permitiram um sorriso, mas ainda restavam dúvidas. Pesha foi o primeiro a não conseguir contê-las.
-Isso foi afortunado! Então temos um mapa bastante incomum em nossas mãos. Mas para onde você acredita que ele irá nos levar, capitã?
Violka assentiu para Chuva de Outono e a elfa rapidamente entendeu o recado, estendendo uma carta náutica das águas onde estavam sobre a mesa já bastante ocupada. A navegadora comparou então o desenho com o mapa estelar dos druidas no pergaminho de papel velino, que por sua vez lhe ajudou a encontrar uma área distante no meio do oceano ao oeste, uma região isolada e quase inexplorada.
-Se eu estiver correta, a rota apontada pelas estrelas nos olhos do Maleko nos levará diretamente para a cidade perdida de Ula-Yhloa! – anunciou a capitã com um brilho no olhar.
-Ula-Yhloa? – indagou Pesha com espanto. – Apenas o Lendário Capitão Roberts já afirmou ter estado lá!
-E nós não vamos deixar que ele seja o único a ter esse privilégio, hã? – concluiu Violka com audácia.
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Marco Fischer,
semana 13
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Filho das Profundezas [Semana 12]
Autor: Marco Fischer
Parte XII - Pesha
Já era noite, e o navio de Violka voava entre as nuvens iluminadas pelo brilhante luar das Ilhas Kupuna. O mar abaixo cintilava refletindo o céu noturno e ocasionalmente era tingido pela luz intensa e azul das algas bioluminescentes agitadas pelas ondas. Um cardume de baleias surgiu como um esquadrão de manchas escuras à frente, lançando esguichos tão altos que quase alcançavam o convés do Hummingbird.
Em sua cabine, a capitã relaxava diante da grande vidraça, deitada em uma grande e confortável rede de tecido vermelho enquanto bebia de um coco partido ao meio. O parapeito da vidraça estava totalmente ocupado por cestos e tigelas de barro contendo abacaxis, romãs, ameixas e todo tipo de fruta que havia negociado com os nativos, além de uma jarra contendo um doce e delicado vinho rosé.
Quando alguém bateu à porta, ela se levantou calmamente já sabendo de quem se tratava. Ali estavam sua navegadora Chuva de Outono, seu contramestre Stevo, o homem grande de rabo-de-cavalo que a havia acompanhado para alimentar o Maleko no porão, e um jovem com óculos de aro grosso e barba rala, chamado Pesha.
Diferente do que muitos no Império Windlês insistiam em acreditar, o povo cigano de Violka não era formado por ladrões de estrada e artistas itinerantes. Eles eram um povo nômade que preferia viver de forma honesta sem comprometer a própria liberdade, mas cujos costumes diferentes acabavam gerando desconfiança e superstição entre os habitantes das cidades por onde passavam.
Pesha era um dos infelizmente comuns exemplos de oportunidade negada por esse preconceito. O rapaz tímido e estudioso sonhava em se tornar um acadêmico em uma das Reais Sociedades de Windlan, mas os inúmeros entraves burocráticos e as impressões erradas sobre seus antecedentes acabaram fazendo com que ele se visse obrigado a se tornar um ‘agente de campo’ naquela tripulação.
O jovem não tinha muito a reclamar do tratamento da capitã, mas diferente do que seus colegas mais ‘civilizados’ acreditavam, ele não era um ‘ladrão aventureiro’ e temia por sua vida nas viagens perigosas do Hummingbird, principalmente quando não tinha noção das reais intenções da capitã, como daquela vez. Ele só desejava fazer logo alguma descoberta importante e ser reconhecido por seu esforço intelectual, não por alguma habilidade ‘ladina’ que lhe era falsamente atribuída.
Com um suspiro resignado, Pesha acompanhou a elfa e o grandalhão até a mesa de reuniões da cabine, onde Violka já se sentava diante deles com uma expressão de plena curiosidade, que mal podia ser contida quando ela falou.
-Fizeram o que pedi?
-Ele pareceu um pouco desconfiado no começo, mas acabou se comportando – respondeu Pesha com sua voz contida e educada, estendendo um papel amarelado para a capitã. – Stevo teve que prometer trazê-lo o dobro de peixes amanhã, se não se importar.
-De forma alguma! Até um cardume inteiro seria um preço pequeno a pagar pelo que temos aqui! – respondeu Violka segurando o papel com um brilho nos olhos. – Já estava na hora de vocês saberem o real motivo dessa viagem!
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Parte XII - Pesha
Já era noite, e o navio de Violka voava entre as nuvens iluminadas pelo brilhante luar das Ilhas Kupuna. O mar abaixo cintilava refletindo o céu noturno e ocasionalmente era tingido pela luz intensa e azul das algas bioluminescentes agitadas pelas ondas. Um cardume de baleias surgiu como um esquadrão de manchas escuras à frente, lançando esguichos tão altos que quase alcançavam o convés do Hummingbird.
Em sua cabine, a capitã relaxava diante da grande vidraça, deitada em uma grande e confortável rede de tecido vermelho enquanto bebia de um coco partido ao meio. O parapeito da vidraça estava totalmente ocupado por cestos e tigelas de barro contendo abacaxis, romãs, ameixas e todo tipo de fruta que havia negociado com os nativos, além de uma jarra contendo um doce e delicado vinho rosé.
Quando alguém bateu à porta, ela se levantou calmamente já sabendo de quem se tratava. Ali estavam sua navegadora Chuva de Outono, seu contramestre Stevo, o homem grande de rabo-de-cavalo que a havia acompanhado para alimentar o Maleko no porão, e um jovem com óculos de aro grosso e barba rala, chamado Pesha.
Diferente do que muitos no Império Windlês insistiam em acreditar, o povo cigano de Violka não era formado por ladrões de estrada e artistas itinerantes. Eles eram um povo nômade que preferia viver de forma honesta sem comprometer a própria liberdade, mas cujos costumes diferentes acabavam gerando desconfiança e superstição entre os habitantes das cidades por onde passavam.
Pesha era um dos infelizmente comuns exemplos de oportunidade negada por esse preconceito. O rapaz tímido e estudioso sonhava em se tornar um acadêmico em uma das Reais Sociedades de Windlan, mas os inúmeros entraves burocráticos e as impressões erradas sobre seus antecedentes acabaram fazendo com que ele se visse obrigado a se tornar um ‘agente de campo’ naquela tripulação.
O jovem não tinha muito a reclamar do tratamento da capitã, mas diferente do que seus colegas mais ‘civilizados’ acreditavam, ele não era um ‘ladrão aventureiro’ e temia por sua vida nas viagens perigosas do Hummingbird, principalmente quando não tinha noção das reais intenções da capitã, como daquela vez. Ele só desejava fazer logo alguma descoberta importante e ser reconhecido por seu esforço intelectual, não por alguma habilidade ‘ladina’ que lhe era falsamente atribuída.
Com um suspiro resignado, Pesha acompanhou a elfa e o grandalhão até a mesa de reuniões da cabine, onde Violka já se sentava diante deles com uma expressão de plena curiosidade, que mal podia ser contida quando ela falou.
-Fizeram o que pedi?
-Ele pareceu um pouco desconfiado no começo, mas acabou se comportando – respondeu Pesha com sua voz contida e educada, estendendo um papel amarelado para a capitã. – Stevo teve que prometer trazê-lo o dobro de peixes amanhã, se não se importar.
-De forma alguma! Até um cardume inteiro seria um preço pequeno a pagar pelo que temos aqui! – respondeu Violka segurando o papel com um brilho nos olhos. – Já estava na hora de vocês saberem o real motivo dessa viagem!
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semana 12
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Filho das Profundezas [Semana 11]
Autor: Marco Fischer
Parte XI - Colibri
O convés do Hummingbard balançava de forma quase imperceptível nas ondas, seguindo o vento e pouco a pouco se afastando da ilha. Violka desceu as escadas do convés com a ajuda de uma muleta, acompanhada por um homem careca de porte atarracado e com um espesso bigode grisalho. Eles caminharam entre a tripulação atarefada até um pequeno aposento no porão, onde o Maleko se encolhia em um canto úmido, o olhar estrelado vago e distante.
-Você ainda não deve ter comido nada hoje. – disse a capitã segurando um lampião e olhando para o garoto-peixe com preocupação – E temos aposentos melhores no navio, se quiser saber.
-Estou bem aqui. Muito seco e barulhento lá em cima. – respondeu o Maleko com aparente cansaço na voz. Ainda estava confuso e fraco depois do que havia acontecido no abismo, e apenas concordara em embarcar por não ter escolha. Tanto o Rei Polvo como o Kahuna o consideravam uma ameaça agora, e ele não seria mais bem-vindo no santuário da ilha.
Com um suspiro de resignação, Violka assentiu para o homem que o acompanhava e este colocou um balde com alguns atuns frescos próximo ao rapaz. Sem nenhuma cerimônia, o Maleko avançou sobre um dos peixes e começou a devorá-lo vorazmente, ali mesmo na frente dos dois.
-Bâldâbâc! Parece que você já está bem à vontade aí mesmo. – exclamou Violka com uma expressão que misturava uma risada com uma careta de nojo. Ela então se virou ao escutar a navegadora elfa que se aproximava com urgência, trazendo em sua mão a luneta.
-É o navio de Faulkner – alertou Chuva de Outono – Tão vindo atrás da gente.
Violka seguiu a elfa até a popa e lhe tomou a luneta das mãos, vendo o navio dos Arautos do Vapor expelindo uma grossa coluna de fumaça pelas chaminés de sua caldeira mecânica, que trabalhava com toda a força para ganhar o máximo de velocidade. Aquele não era um ritmo que conseguiriam manter por muito tempo, mas seria o suficiente para abordar o pequeno e ágil Hummingbird.
-Olha lá o homenzinho e seu brinquedo achando que pode vir aqui e levar o nosso hóspede. – disse Violka com escárnio, abaixando a luneta e sorrindo para a elfa. - Vamos mostrar a ele porque ninguém alcança o nosso navio!
-Ah! Eu tava só esperando você falar! – respondeu Chuva de Outono com uma alegria infantil, correndo animada para o timão e fechando os olhos enquanto começava a entoar uma canção melodiosa e ressonante, como o canto de uma baleia.
Dente de leão, pitada de poeira.
Que leva embora a brisa altaneira.
Leva também esse barco a navegar.
Para ir nas nuvens também flutuar.
A tripulação do Hummingbird já sabia o que fazer assim que começou a escutar o encantamento. Se segurando firme nos cordames, eles sentiam a vibração cada vez mais forte vinda do casco. Logo, várias asas de luz como as de um colibri em voo surgiam nas laterais do navio, o erguendo das ondas para o céu dourado do poente.
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Parte XI - Colibri
O convés do Hummingbard balançava de forma quase imperceptível nas ondas, seguindo o vento e pouco a pouco se afastando da ilha. Violka desceu as escadas do convés com a ajuda de uma muleta, acompanhada por um homem careca de porte atarracado e com um espesso bigode grisalho. Eles caminharam entre a tripulação atarefada até um pequeno aposento no porão, onde o Maleko se encolhia em um canto úmido, o olhar estrelado vago e distante.
-Você ainda não deve ter comido nada hoje. – disse a capitã segurando um lampião e olhando para o garoto-peixe com preocupação – E temos aposentos melhores no navio, se quiser saber.
-Estou bem aqui. Muito seco e barulhento lá em cima. – respondeu o Maleko com aparente cansaço na voz. Ainda estava confuso e fraco depois do que havia acontecido no abismo, e apenas concordara em embarcar por não ter escolha. Tanto o Rei Polvo como o Kahuna o consideravam uma ameaça agora, e ele não seria mais bem-vindo no santuário da ilha.
Com um suspiro de resignação, Violka assentiu para o homem que o acompanhava e este colocou um balde com alguns atuns frescos próximo ao rapaz. Sem nenhuma cerimônia, o Maleko avançou sobre um dos peixes e começou a devorá-lo vorazmente, ali mesmo na frente dos dois.
-Bâldâbâc! Parece que você já está bem à vontade aí mesmo. – exclamou Violka com uma expressão que misturava uma risada com uma careta de nojo. Ela então se virou ao escutar a navegadora elfa que se aproximava com urgência, trazendo em sua mão a luneta.
-É o navio de Faulkner – alertou Chuva de Outono – Tão vindo atrás da gente.
Violka seguiu a elfa até a popa e lhe tomou a luneta das mãos, vendo o navio dos Arautos do Vapor expelindo uma grossa coluna de fumaça pelas chaminés de sua caldeira mecânica, que trabalhava com toda a força para ganhar o máximo de velocidade. Aquele não era um ritmo que conseguiriam manter por muito tempo, mas seria o suficiente para abordar o pequeno e ágil Hummingbird.
-Olha lá o homenzinho e seu brinquedo achando que pode vir aqui e levar o nosso hóspede. – disse Violka com escárnio, abaixando a luneta e sorrindo para a elfa. - Vamos mostrar a ele porque ninguém alcança o nosso navio!
-Ah! Eu tava só esperando você falar! – respondeu Chuva de Outono com uma alegria infantil, correndo animada para o timão e fechando os olhos enquanto começava a entoar uma canção melodiosa e ressonante, como o canto de uma baleia.
Dente de leão, pitada de poeira.
Que leva embora a brisa altaneira.
Leva também esse barco a navegar.
Para ir nas nuvens também flutuar.
A tripulação do Hummingbird já sabia o que fazer assim que começou a escutar o encantamento. Se segurando firme nos cordames, eles sentiam a vibração cada vez mais forte vinda do casco. Logo, várias asas de luz como as de um colibri em voo surgiam nas laterais do navio, o erguendo das ondas para o céu dourado do poente.
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semana 11
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Filho das Profundezas [Semana 10]
Autor: Marco Fischer
Parte X - Impulso
Uma estranha bioluminescência esverdeada iluminava o abismo submerso em clarões esparsos enquanto vozes vindas de lugar nenhum continuavam a ecoar pelas paredes de pedra como se proferidas por fantasmas invisíveis nadando em círculos. Por trás da parede de tinta exalada pelos súditos do Rei Polvo era impossível enxergar o Maleko, mas não havia dúvidas de que sua presença era o olho daquela tempestade de horror em formação.
Os soldados octópodes se preparavam para investir contra o garoto-peixe enquanto o Arauto de Kanaloa continuava em seu estado de torpor psíquico. Precisariam apenas de uma única carga usando a propulsão natural de seus corpos para perfurar o rapaz de todos os lados, acabando com a ameaça. Eles se colocaram em formação ao redor do Maleko, já com as armas em riste, quando algo subitamente os atingiu e fez com que se espalhassem confusos em todas as direções.
Era um anel de bolhas, formado por dois círculos que aumentavam e diminuíam à medida que um passava por dentro do outro, da mesma forma que aqueles expelidos naturalmente por baleias, golfinhos e vulcões submersos, porém muito maior. Enquanto o círculo que se ampliava atingiu os guerreiros polvo, o círculo que diminuía de tamanho se fechou ao redor do Maleko, o erguendo rapidamente pelo abismo na direção da superfície.
Ao chegar às águas mais rasas, ele se viu cercado por um cardume de tubarões de todos os tipos e tamanhos. Alguns o circundavam com curiosidade, outros desciam até a entrada do abismo e espantavam qualquer súdito do Rei Polvo que estivesse vindo ao seu encalço. O maior deles estava simplesmente parado em sua frente, e sobre seu dorso estava o velho sábio do clã que o acolhera.
Ainda com os olhos obscurecidos, o Maleko se libertou do anel de bolhas com um movimento brusco e avançou descontrolado para o velho nativo, espantando os tubarões com o forte clarão esmeralda que projetava na água. O Kahuna não se abalou e reagiu rapidamente com um movimento de seu cajado, criando um forte impulso que lançou o garoto-peixe para a superfície como um canhão.
Violka estava mancando na direção do navio apoiada em Chuva de Outono quando viu o Maleko sendo disparado do mar, voando em um arco vertiginoso até se chocar contra a areia perto de onde estava. Com uma expressão de surpresa, a capitã assentiu para a elfa e as duas desviaram o caminho na direção do garoto.
O Maleko estava completamente desorientado e confuso, sentindo como se estivesse dormindo antes de ser acordado pela queda. Seu corpo estava dolorido pelo impacto e ralado pela areia, mas o solo fofo da praia havia impedido um ferimento pior. Deitado de barriga para cima, ele sentiu seus olhos lentamente voltarem a sua forma original, expulsando lágrimas grossas e negras que escorreram como óleo por seu rosto.
Agora que estava fora do oceano, todas as vozes haviam silenciado. Todas com exceção de uma única, mas essa era a voz melodiosa e gentil daquela que iria se tornar sua capitã.
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Parte X - Impulso
Uma estranha bioluminescência esverdeada iluminava o abismo submerso em clarões esparsos enquanto vozes vindas de lugar nenhum continuavam a ecoar pelas paredes de pedra como se proferidas por fantasmas invisíveis nadando em círculos. Por trás da parede de tinta exalada pelos súditos do Rei Polvo era impossível enxergar o Maleko, mas não havia dúvidas de que sua presença era o olho daquela tempestade de horror em formação.
Os soldados octópodes se preparavam para investir contra o garoto-peixe enquanto o Arauto de Kanaloa continuava em seu estado de torpor psíquico. Precisariam apenas de uma única carga usando a propulsão natural de seus corpos para perfurar o rapaz de todos os lados, acabando com a ameaça. Eles se colocaram em formação ao redor do Maleko, já com as armas em riste, quando algo subitamente os atingiu e fez com que se espalhassem confusos em todas as direções.
Era um anel de bolhas, formado por dois círculos que aumentavam e diminuíam à medida que um passava por dentro do outro, da mesma forma que aqueles expelidos naturalmente por baleias, golfinhos e vulcões submersos, porém muito maior. Enquanto o círculo que se ampliava atingiu os guerreiros polvo, o círculo que diminuía de tamanho se fechou ao redor do Maleko, o erguendo rapidamente pelo abismo na direção da superfície.
Ao chegar às águas mais rasas, ele se viu cercado por um cardume de tubarões de todos os tipos e tamanhos. Alguns o circundavam com curiosidade, outros desciam até a entrada do abismo e espantavam qualquer súdito do Rei Polvo que estivesse vindo ao seu encalço. O maior deles estava simplesmente parado em sua frente, e sobre seu dorso estava o velho sábio do clã que o acolhera.
Ainda com os olhos obscurecidos, o Maleko se libertou do anel de bolhas com um movimento brusco e avançou descontrolado para o velho nativo, espantando os tubarões com o forte clarão esmeralda que projetava na água. O Kahuna não se abalou e reagiu rapidamente com um movimento de seu cajado, criando um forte impulso que lançou o garoto-peixe para a superfície como um canhão.
Violka estava mancando na direção do navio apoiada em Chuva de Outono quando viu o Maleko sendo disparado do mar, voando em um arco vertiginoso até se chocar contra a areia perto de onde estava. Com uma expressão de surpresa, a capitã assentiu para a elfa e as duas desviaram o caminho na direção do garoto.
O Maleko estava completamente desorientado e confuso, sentindo como se estivesse dormindo antes de ser acordado pela queda. Seu corpo estava dolorido pelo impacto e ralado pela areia, mas o solo fofo da praia havia impedido um ferimento pior. Deitado de barriga para cima, ele sentiu seus olhos lentamente voltarem a sua forma original, expulsando lágrimas grossas e negras que escorreram como óleo por seu rosto.
Agora que estava fora do oceano, todas as vozes haviam silenciado. Todas com exceção de uma única, mas essa era a voz melodiosa e gentil daquela que iria se tornar sua capitã.
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semana 10
sexta-feira, 23 de maio de 2014
Filho das Profundezas [Semana 09]
Autor: Marco Fischer
Parte IX - Vozes
O Arauto de Kanaloa ergueu sei imenso corpo cefalópode das sombras e fitou o Maleko com olhos cinzentos e membranosos, enquanto as nadadeiras nos lados de sua cabeça ondulavam agitadas e um padrão psicodélico de luzes azuis, roxas e verdes serpenteava freneticamente abaixo de sua pele. Ele era a criatura conhecida pelos nativos como He’e Mo’i, o ‘Rei Polvo’, e sua voz estremeceu a água quando falou.
“Filho das Profundezas. Ofereci-lhe refúgio em meu santuário e agora cobro o preço devido. Um segredo por sua proteção. Me entregue a chave de Y'ha-nthlei e teremos cumprido o nosso acordo.”
O rosto do garoto-peixe se contorcia em uma careta, os pequenos pontos luminosos em seus olhos diminuindo de intensidade. Sua cabeça doía ainda mais agora, e os sussurros continuavam a atormentá-lo, vindos de algum lugar ainda mais profundo e distante do que os domínios do Rei Polvo.
“A Ordem já te localizou. Você também deve estar sentindo a aproximação deles. Os híbridos abissais estarão aqui em breve, e não serão tão piedosos. Apenas cumpra nosso trato entregando o segredo, e comigo ele estará seguro.”
-Você disse que eu teria a proteção da ilha por quanto tempo eu quisesse! Que o tempo necessário pra mim não era nada pra você! Eu quero voltar para lá!
“Você está certo sobre o que eu lhe disse. Mas a imprudência em deixar a ilha foi sua. Agora é tarde demais. O santuário não poderá mais escondê-lo, e meu trabalho está feito. Terei o que quero antes que você seja morto.”
Os enormes tentáculos da entidade se aproximavam do Maleko agora, ao mesmo tempo em que outras formas marinhas deslizavam entre eles. Eram os súditos do Rei Polvo, uma raça de moluscos inteligentes que brandia lanças e escudos feitos com esqueletos de arraias e outras criaturas do oceano. Eles se comunicavam em clarões azulados e expeliam tinta enquanto cercavam o rapaz, formando uma barreira escura e pegajosa para evitar sua fuga.
Os olhos do garoto escureciam cada vez mais agora, os pontos luminosos em sua superfície enfraquecendo até se apagarem completamente. O céu de estrelas noturnas em seus orbes se transformou em um completo breu, e os guerreiros polvo se assustaram ao ouvir vozes nas profundezas que não eram as suas.
Os tentáculos de He’e Mo’i vacilaram enquanto ele paralisava na água, seus olhos assumindo a mesma tonalidade escura que os do Maleko. O corpo do Rei Polvo começou a emitir sinais luminosos que seus súditos entendiam como um alerta de perigo, mas havia algo mais, algo que eles reconheciam, mas não se lembravam de ter visto uma única vez tendo vindo daquela assombrosa criatura.
O Arauto de Kanaloa estava com medo. Sua mente ancestral havia sido tomada de assalto por uma poderosa presença psíquica, um pesadelo adormecido do oceano que respirava entre ruínas cobertas de lodo tão negro quanto os olhos daquele rapaz. Um pesadelo de Y'ha-nthlei, cujas vozes rodopiavam naquela fenda submarina em um redemoinho quase palpável de medo.
O Filho das Profundezas estava despertando.
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Parte IX - Vozes
O Arauto de Kanaloa ergueu sei imenso corpo cefalópode das sombras e fitou o Maleko com olhos cinzentos e membranosos, enquanto as nadadeiras nos lados de sua cabeça ondulavam agitadas e um padrão psicodélico de luzes azuis, roxas e verdes serpenteava freneticamente abaixo de sua pele. Ele era a criatura conhecida pelos nativos como He’e Mo’i, o ‘Rei Polvo’, e sua voz estremeceu a água quando falou.
“Filho das Profundezas. Ofereci-lhe refúgio em meu santuário e agora cobro o preço devido. Um segredo por sua proteção. Me entregue a chave de Y'ha-nthlei e teremos cumprido o nosso acordo.”
O rosto do garoto-peixe se contorcia em uma careta, os pequenos pontos luminosos em seus olhos diminuindo de intensidade. Sua cabeça doía ainda mais agora, e os sussurros continuavam a atormentá-lo, vindos de algum lugar ainda mais profundo e distante do que os domínios do Rei Polvo.
“A Ordem já te localizou. Você também deve estar sentindo a aproximação deles. Os híbridos abissais estarão aqui em breve, e não serão tão piedosos. Apenas cumpra nosso trato entregando o segredo, e comigo ele estará seguro.”
-Você disse que eu teria a proteção da ilha por quanto tempo eu quisesse! Que o tempo necessário pra mim não era nada pra você! Eu quero voltar para lá!
“Você está certo sobre o que eu lhe disse. Mas a imprudência em deixar a ilha foi sua. Agora é tarde demais. O santuário não poderá mais escondê-lo, e meu trabalho está feito. Terei o que quero antes que você seja morto.”
Os enormes tentáculos da entidade se aproximavam do Maleko agora, ao mesmo tempo em que outras formas marinhas deslizavam entre eles. Eram os súditos do Rei Polvo, uma raça de moluscos inteligentes que brandia lanças e escudos feitos com esqueletos de arraias e outras criaturas do oceano. Eles se comunicavam em clarões azulados e expeliam tinta enquanto cercavam o rapaz, formando uma barreira escura e pegajosa para evitar sua fuga.
Os olhos do garoto escureciam cada vez mais agora, os pontos luminosos em sua superfície enfraquecendo até se apagarem completamente. O céu de estrelas noturnas em seus orbes se transformou em um completo breu, e os guerreiros polvo se assustaram ao ouvir vozes nas profundezas que não eram as suas.
Os tentáculos de He’e Mo’i vacilaram enquanto ele paralisava na água, seus olhos assumindo a mesma tonalidade escura que os do Maleko. O corpo do Rei Polvo começou a emitir sinais luminosos que seus súditos entendiam como um alerta de perigo, mas havia algo mais, algo que eles reconheciam, mas não se lembravam de ter visto uma única vez tendo vindo daquela assombrosa criatura.
O Arauto de Kanaloa estava com medo. Sua mente ancestral havia sido tomada de assalto por uma poderosa presença psíquica, um pesadelo adormecido do oceano que respirava entre ruínas cobertas de lodo tão negro quanto os olhos daquele rapaz. Um pesadelo de Y'ha-nthlei, cujas vozes rodopiavam naquela fenda submarina em um redemoinho quase palpável de medo.
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semana 09
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Filho das Profundezas [Semana 08]
Autor: Marco Fischer
Parte VIII - Kanaloa
A onda gigante que atingiu a ilha pegou Violka de surpresa, e foi sentida até mesmo pelos nativos no interior. A capitã teve tempo apenas de proteger o rosto enquanto rolava pela areia, indo de encontro a uma palmeira contra a qual se chocou de costas. Passado o impacto, ela se sentou na areia com dificuldade e se viu coberta por algas e pequenos animais marinhos, que corriam assustados de volta para o mar.
Cuspindo a água salgada que engolira, ela começou a se limpar quando viu a coluna de fumaça da máquina submarina dos Arautos do Vapor subir das águas mais escuras onde estava o abismo das cascatas de areia. Levantou-se então para correr, mas suas costelas reclamaram com uma pontada de dor e ela caiu de joelhos. Foi então que avistou o Hummingbird vindo em seu socorro, flutuando nas ondas como um colibri.
O navio de velas púrpuras tinha uma estrutura pequena e delicada como o beija-flor a quem devia seu nome, mas era também incrivelmente rápido. Chuva de Outono o manobrava com habilidade, tirando o máximo de proveito das correntes de ar e aproveitando a leveza do barco para cruzar a grande onda com um movimento gracioso que o manteve ileso e inabalado.
Enquanto a tripulação de Violka se preparava para desembarcar, o garoto-peixe afundava cada vez mais junto com o aparato agora destruído. Quando finalmente conseguiu se libertar da garra de metal já estava bem abaixo da superfície, mas seu corpo estava perfeitamente adaptado para a pressão. Ele não entendia como conseguia alterar seu metabolismo tão rápido, assim como muitas outras coisas sobre si mesmo.
E não era hora para ficar pensando sobre isso. Estava outra vez em terreno hostil, e já sentia presenças ameaçadoras se aproximando. Vinham primeiro como uma vibração ruim que ele conseguia sentir na água, de forma parecida como um peixe sente a aproximação de um predador. Era algo imenso e antigo, que rastejava na escuridão mais abaixo entre as carcaças esquecidas e seres desconhecidos das fossas abissais.
Depois vinham as vozes. Sussurros telepáticos que tentavam enlouquecê-lo, balbuciando numa língua proibida em qualquer lugar tocado pela luz do sol. Um idioma profano e perturbador do qual ele pouco entendia, mas que com frequência repetia uma única palavra, se é que pudesse ser chamada assim.
“Y'ha-nthlei”
Sentindo o perigo cada vez mais perto, o Maleko disparou a nadar para a superfície, mas as sombras ao seu redor já se contorciam em formas terríveis e sinuosas. Ouvindo um barulho alto, ele olhou para baixo e na luz fosforescente distinguiu uma forma humana sendo arrancada de dentro do aparato submarino e puxada para as profundezas por um tentáculo que cintilava com um fraco brilho azul-elétrico.
O rapaz sabia que não havia tempo de fugir. Aquela não era uma besta irracional que poderia ser distraída pela estranha máquina, que só agora ele percebia ser pilotada por um infeliz humano. Era uma criatura perigosa e temida pelos nativos do arquipélago: um servo de Kanaloa, o Deus Polvo.
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Parte VIII - Kanaloa
A onda gigante que atingiu a ilha pegou Violka de surpresa, e foi sentida até mesmo pelos nativos no interior. A capitã teve tempo apenas de proteger o rosto enquanto rolava pela areia, indo de encontro a uma palmeira contra a qual se chocou de costas. Passado o impacto, ela se sentou na areia com dificuldade e se viu coberta por algas e pequenos animais marinhos, que corriam assustados de volta para o mar.
Cuspindo a água salgada que engolira, ela começou a se limpar quando viu a coluna de fumaça da máquina submarina dos Arautos do Vapor subir das águas mais escuras onde estava o abismo das cascatas de areia. Levantou-se então para correr, mas suas costelas reclamaram com uma pontada de dor e ela caiu de joelhos. Foi então que avistou o Hummingbird vindo em seu socorro, flutuando nas ondas como um colibri.
O navio de velas púrpuras tinha uma estrutura pequena e delicada como o beija-flor a quem devia seu nome, mas era também incrivelmente rápido. Chuva de Outono o manobrava com habilidade, tirando o máximo de proveito das correntes de ar e aproveitando a leveza do barco para cruzar a grande onda com um movimento gracioso que o manteve ileso e inabalado.
Enquanto a tripulação de Violka se preparava para desembarcar, o garoto-peixe afundava cada vez mais junto com o aparato agora destruído. Quando finalmente conseguiu se libertar da garra de metal já estava bem abaixo da superfície, mas seu corpo estava perfeitamente adaptado para a pressão. Ele não entendia como conseguia alterar seu metabolismo tão rápido, assim como muitas outras coisas sobre si mesmo.
E não era hora para ficar pensando sobre isso. Estava outra vez em terreno hostil, e já sentia presenças ameaçadoras se aproximando. Vinham primeiro como uma vibração ruim que ele conseguia sentir na água, de forma parecida como um peixe sente a aproximação de um predador. Era algo imenso e antigo, que rastejava na escuridão mais abaixo entre as carcaças esquecidas e seres desconhecidos das fossas abissais.
Depois vinham as vozes. Sussurros telepáticos que tentavam enlouquecê-lo, balbuciando numa língua proibida em qualquer lugar tocado pela luz do sol. Um idioma profano e perturbador do qual ele pouco entendia, mas que com frequência repetia uma única palavra, se é que pudesse ser chamada assim.
“Y'ha-nthlei”
Sentindo o perigo cada vez mais perto, o Maleko disparou a nadar para a superfície, mas as sombras ao seu redor já se contorciam em formas terríveis e sinuosas. Ouvindo um barulho alto, ele olhou para baixo e na luz fosforescente distinguiu uma forma humana sendo arrancada de dentro do aparato submarino e puxada para as profundezas por um tentáculo que cintilava com um fraco brilho azul-elétrico.
O rapaz sabia que não havia tempo de fugir. Aquela não era uma besta irracional que poderia ser distraída pela estranha máquina, que só agora ele percebia ser pilotada por um infeliz humano. Era uma criatura perigosa e temida pelos nativos do arquipélago: um servo de Kanaloa, o Deus Polvo.
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Marco Fischer,
semana 08
sexta-feira, 9 de maio de 2014
Filho das Profundezas [Semana 07]
Autor: Marco Fischer
Parte VII - Fumaça.
Na pequena mata tropical, o Capitão Faulkner seguia até seu navio, protegido pelos marinheiros que recuavam cautelosamente com os rifles mecânicos engatilhados. Com o Maleko fora da ilha não havia mais o que fazer ali, e uma luta com os nativos seria além de uma perda de tempo desnecessária um motivo para retaliação por outras tribos. Era preciso assegurar que o espécime havia sido capturado pelo seu aparato de exploração submersa em baixa profundidade, como gostava de chamá-lo.
Perto dali, no lago salgado, o mergulhador Mervyn emergia desajeitado e apressadamente removia seu escafandro cheio de água. Olhando em volta, ele não via mais sinal da tripulação, apenas chefe Oke e seus guerreiros o cercando com uma expressão nem um pouco amistosa.
Ainda apoiado nas costas do tubarão-baleia, o Kahuna deslizava na direção da máquina grotesca, que se afastava indiferente ao sábio das ondas em seu animal sagrado. Aquele invasor de metal estava assustando os animais marinhos que iriam alimentar seu povo na estação de pesca. Em uma súbita arremetida, o tubarão se chocou contra o monstro mecânico, que sequer se moveu. Recuando com agilidade, o grande peixe desviou da garra que tentou golpeá-lo e tomou distância outra vez, mas não se preparou para investir novamente.
Se agarrando nos flancos do animal com as pernas, o Kahuna fechou os olhos e balançou seu bastão fazendo círculos na água. Os padrões tribais sobre o dorso do tubarão brilharam com uma luz tremulante que lembrava a do sol sobre o solo marinho. Desenhos similares entalhados no cajado do velho emitiam o mesmo brilho, e quando ele fez um último movimento dando uma estocada na direção do imenso aparato, uma força poderosa como um pequeno tsunami explodiu em um círculo ao seu redor.
O monstro de metal tentou em vão se manter no lugar, cravando uma de suas garras na areia, mas acabou sendo arrastado até o grande abismo azul próximo, despencando nas profundezas com o Maleko enquanto seu motor feito para ficar acima da água pifava e deixava um rastro de fumaça e bolhas.
Ali perto, a brisa marinha balançava calmamente as velas púrpuras do Hummingbird, fazendo com que elas roçassem as folhas das longas palmeiras inclinadas sobre o mar onde a embarcação estava ancorada. Chuva de Outono, a navegadora, se sentou sobre a amurada do castelo de proa deixando que o vento sacudisse seus cabelos alaranjados cortados na altura do ombro. Ela era uma remanescente do escasso povo élfico de uma região agora tomada pelo Império Windlês, algo denunciado pelas suas orelhas pontudas e pelo corpo esguio de fada, recoberto de tatuagens marítimas.
Repentinamente, algo quebrou a tranquilidade da navegadora ruiva, que sacou da cintura uma delicada luneta de madeira e cristal e a apontou na direção do que havia visto. Ela agora podia discernir claramente a coluna de fumaça que subia de algum ponto no litoral. Correndo até o timão, Chuva de Outono gritou uma ordem para a tripulação e se preparou para levantar âncora.
Sua capitã estava precisando de ajuda.
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Parte VII - Fumaça.
Na pequena mata tropical, o Capitão Faulkner seguia até seu navio, protegido pelos marinheiros que recuavam cautelosamente com os rifles mecânicos engatilhados. Com o Maleko fora da ilha não havia mais o que fazer ali, e uma luta com os nativos seria além de uma perda de tempo desnecessária um motivo para retaliação por outras tribos. Era preciso assegurar que o espécime havia sido capturado pelo seu aparato de exploração submersa em baixa profundidade, como gostava de chamá-lo.
Perto dali, no lago salgado, o mergulhador Mervyn emergia desajeitado e apressadamente removia seu escafandro cheio de água. Olhando em volta, ele não via mais sinal da tripulação, apenas chefe Oke e seus guerreiros o cercando com uma expressão nem um pouco amistosa.
Ainda apoiado nas costas do tubarão-baleia, o Kahuna deslizava na direção da máquina grotesca, que se afastava indiferente ao sábio das ondas em seu animal sagrado. Aquele invasor de metal estava assustando os animais marinhos que iriam alimentar seu povo na estação de pesca. Em uma súbita arremetida, o tubarão se chocou contra o monstro mecânico, que sequer se moveu. Recuando com agilidade, o grande peixe desviou da garra que tentou golpeá-lo e tomou distância outra vez, mas não se preparou para investir novamente.
Se agarrando nos flancos do animal com as pernas, o Kahuna fechou os olhos e balançou seu bastão fazendo círculos na água. Os padrões tribais sobre o dorso do tubarão brilharam com uma luz tremulante que lembrava a do sol sobre o solo marinho. Desenhos similares entalhados no cajado do velho emitiam o mesmo brilho, e quando ele fez um último movimento dando uma estocada na direção do imenso aparato, uma força poderosa como um pequeno tsunami explodiu em um círculo ao seu redor.
O monstro de metal tentou em vão se manter no lugar, cravando uma de suas garras na areia, mas acabou sendo arrastado até o grande abismo azul próximo, despencando nas profundezas com o Maleko enquanto seu motor feito para ficar acima da água pifava e deixava um rastro de fumaça e bolhas.
Ali perto, a brisa marinha balançava calmamente as velas púrpuras do Hummingbird, fazendo com que elas roçassem as folhas das longas palmeiras inclinadas sobre o mar onde a embarcação estava ancorada. Chuva de Outono, a navegadora, se sentou sobre a amurada do castelo de proa deixando que o vento sacudisse seus cabelos alaranjados cortados na altura do ombro. Ela era uma remanescente do escasso povo élfico de uma região agora tomada pelo Império Windlês, algo denunciado pelas suas orelhas pontudas e pelo corpo esguio de fada, recoberto de tatuagens marítimas.
Repentinamente, algo quebrou a tranquilidade da navegadora ruiva, que sacou da cintura uma delicada luneta de madeira e cristal e a apontou na direção do que havia visto. Ela agora podia discernir claramente a coluna de fumaça que subia de algum ponto no litoral. Correndo até o timão, Chuva de Outono gritou uma ordem para a tripulação e se preparou para levantar âncora.
Sua capitã estava precisando de ajuda.
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Marco Fischer,
semana 07
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