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sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Contos do Amante da Morte - Considerações Finais

Autora: Mari-Youko-Sama

Apêndices:

Contos do Amante da Morte é um conjunto de relatos narrados durante um dos arcos da mesa de RPG que mestrei por 5 anos. Muitas coisas que sequer tinham sido elucidadas foram postas no papel de forma linear e chegaram a quem quisesse ler. Tive a oportunidade de situar, contextualizar os fatos e assim fazer pequenos ajustes para que esses contos se emancipassem da história mãe que dava nome a campanha.

O projeto MONOBA apesar da proposta simples de um capítulo curto por semana, ainda sim requer um compromisso e tanto de cada autor com seu horário de escrita e com os prazos de entrega (eu me peguei em situações bem complicadas por não me organizar em algumas semanas), assim como um esforço criativo razoável em compor toda a trama e a desenvolver.

Acredito que todos que se dispuseram a fazer parte do projeto deixaram experiências e sensações, assim como cultivaram percepções bem particulares sobre sua própria obra no desenrolar das semanas.

Não é um esforço pequeno, tão pouco se restringe somente aos autores, devo agradecimentos especiais a Midori pelo convite e por toda a organização, solução de problemas, comprometimento com prazos e divulgações. O espaço da internet para a literatura é algo em constante mudança que carece de ideias inovadoras como a do projeto MONOBA que comprova que dinâmicas semelhantes podem dá certo e serem bem recepcionadas.

No mais, eu cresci como autora e sempre terei o projeto MONOBA como uma parte fundamental nesse processo de aprimoramento pessoal na parte escrita.

E para aqueles que são amantes de literatura de ficção e não se contentam apenas em ler, não percam tempo, ponham as ideias no papel, dê forma e busque principalmente conta-las para outras pessoas, sempre tem quem queira ler e ouvi-las.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 25]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 21: Tudo ou Nada.

E tudo convergia naquele minúsculo espaço de tempo entre o sussurro da outra e os lábios de Marcos se moverem. Como se um abismo gigante tivesse sido aberto naquele instante, o jovem Blackwood precisou reunir toda a força de vontade que o tinha arrastado até ali para responder:

– Não.

– “Não”? – agora a loira estreitava o olhar na direção do moreno. – Está certo disso?

– Eu não tenho a honra de um nobre, mesmo herdando o sangue, é preciso mais que isso para tê-la, porém… – apertou o corpo do irmão junto ao peito – eu ainda sou um homem que cumpre com a palavra e se você quer o que diz, vai ter de dar a sua também.

– Com “minha palavra” você quer uma garantia? E por que acha que eu cumpriria com esta “palavra”? – comentou em tom mais cauteloso, mas ainda mantendo um sorriso zombeteiro no rosto.

– Posso estar ficando louco, mas acredito que isso que deseja você não pode tirar, pelo menos não a força… – teve uma confirmação quando notou o olhar da outra se estreitar ainda mais, pelo menos acreditava que tinha sido uma confirmação – e eu não vou fazer nada do que pedir se meu irmão morrer.

– Arriscaria a vida dele em um blefe? – levou a mão ao queixo em um olhar frio e apático a tentativa de negociação do jovem Blackwood.

– É o que eu tenho e ele não tem tanto tempo, se “você” não se decidir, nós dois perdemos! – queria ter posto mais força em sua voz, mas estava apavorado, no fundo de sua mente, imaginava que talvez ela esperasse por essa afronta, mas tudo estava se perdendo, e se fosse para fazer uma última aposta, tinha de ser naquele momento.

Então a loira se levantou e pousou os dedos finos em um broche feito de ouro branco em forma de videira, desatando a manta que lhe cobria o corpo, revelando um vestido de seda fino, com adornos dourados de videiras no busto e na barra do vestido. Com a ponta do dedo, pressionou sobre o pulso até o dedo afundar na pele pálida fazendo minar um veio de sangue de um vermelho escuro, e fez caminho até o cotovelo abrindo um corte profundo que jorrava filetes de sangue sobre o corpo de Matheus:

– Eu dou-lhe a mim mesma como garantia, e os dias que seu irmão estaria fadado a viver agora serão mais longos, no entanto… – os olhos dourados fixaram no rosto de Marcos – Para cada gota do meu sangue dada ao seu irmão, tu me servirás por 100 dias, durante os dias e a noites durante o tempo e o pós-tempo.

O corpo de Matheus se debateu e depois cessou, deixando uma estranha sensação de vida no corpo desacordado. Marcos levou a mão ao rosto de seu irmão e tomou seu tempo para observá-lo, a temperatura tinha voltado a corpo do rapaz, e embora não entendesse o que era aquela mulher, sabia que ela tinha cumprido com sua parte. O ambiente estava silencioso, e até a borboleta dourada tinha parado de se debater, uma luz opaca se mantinha saindo da lamparina, até finalmente entregar o cômodo à penumbra. Restava agora ele cumprir. Apoiou o corpo de Matheus com cuidado e em seguida ergueu-se frente à loira, a encarou e abriu os braços em um gesto de rendição:

– Toma para ti, o que agora é seu, eu permito. – não sabia como medir o peso daquelas palavras, mas sentia a importância delas ao serem proferidas. No entanto, diferente do que imaginava, não sentia remorso, pensava ter feito a coisa certa, queria acreditar nisso, ao menos.

A figura da loira sibilou um sorriso estreito e cheio de veneno, com um gesto delicado, cobriu-lhe os olhos e tocou-lhe o peito, foi a última sensação viva que tivera…


Epílogo:  Além do fim 


– Não preciso entrar em detalhes sobre as sensações da morte, não é?

– Não há necessidade. O processo pelo qual passaste não é o convencional, por isso, tuas sensações estavam distorcidas e julgo dizer que sua dona tinha preferência pelo pior processo.

– Correção: “antiga dona”. Não sou propriedade de ninguém além das minhas próprias ambições.

– Uriel, sabias que eras teu fim e mesmo assim deste tua vida. Realmente não sabias o que teu consanguíneo tramava?

– Correção: “Lorde Uriel”.

– Tuas alcunhas e títulos não têm valor aqui, apenas responda.

– Marcos sempre teve fé em sua família e para Matheus não foi diferente, embora infeliz nas promessas que fazia e a senhora sabe bem o porquê.

– Os pesos que julgam ser capazes de carregar nada têm haver com meu trabalho.  Se tu, na época, escolheste fazer tais promessas, apenas a tu restava o peso de arrastá-las. Mas com seu consanguíneo foi diferente, ele burlou as regras naquela noite.

– Sim, hoje em dia enxergo a artimanha pouco criativa de Matheus em negociar para ter longevidade usando meu sangue de barganha, afinal nem todo mortal pode se encontrar com seres feéricos, mas como não podia negociar a vida de outra pessoa, armou aquele circo para me convencer. Marcos de fato não tinha arrependimentos, fez tudo por amor a sua família e para honrar suas promessas, quase tão medíocre quanto qualquer livreto ou canção tocada por bardos.

– Para quem burla meu trabalho, resta apenas as mazelas da longevidade, assim como as tuas.

– Não há restrições para mim, apenas as que a senhora desejar inventar em sua criatividade mórbida.

– Nunca meça a Mim por você mesmo.  E para tua ultima restrição: descubra onde teu antigo consanguíneo retornará para finalmente receber a punição pela afronta.

– Por isso eu disse que não há mais restrições, eu sou um ser livre porque antes mesmo da pergunta eu já tinha a resposta.

– …

– Existe apenas um objetivo para Matheus: Ser o Regente, e ele retornará no meio do mercado negro, mas perto da magia.

– …

– Entendeu?! Agora desate os nós, minha amada senhora, pois a partir de hoje Lorde Uriel está além da própria Morte.


Fim… por agora.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 24]

Autora: Mari-Youko-Sama

“Até hoje um pensamento permeia as minhas opacas lembranças e sempre se ‘reaviva’, quando releio essas linhas: Por que ela me traiu?”

Capítulo 20: Pagamento Devido.

O tempo parecia ter congelado. Matheus estava inerte, seu peito sequer se movia, a mulher estava de pé, observando os irmãos com um olhar frio e penetrante, Marcos parecia ter perdido o fôlego em meio a situação. Apenas a borboleta dourada se debatia dentro da lamparina em um ritmo hipnótico, fazendo as sombras projetadas pelos corpos parecerem estar se debatendo também.

A boca do jovem Blackwood estava seca, todo o seu corpo parecia submetido a um peso invisível gigante. Sentia-se como um animal acuado: estava apavorado, seu coração palpitava com tanta força que chegava a ser incômodo. Então, a outra deu um passo à frente, e como numa reação involuntária, Marcos gritou… apesar de bela, aquela mulher era aterrorizante:

– PARE! NÃO NOS MATE! – agarrou o corpo do irmão e o pressionou contra o próprio peito, em um gesto protetor, então pôde notar como o corpo do outro estava frio – M-Matheus!?

– Se demorar, vai acabar perdendo-o também, primogênito dos Blackwood.

– Por que está fazendo isso?

– Essa é uma pergunta retórica – comentou como se fosse uma resposta muito óbvia – mas… voltando ao seu singelo pedido de misericórdia, me diga: por que deveria mantê-los vivos? Que tipo de valia vocês teriam para alguém como eu?

– Alguém como você? Valia? – A expressão de Marcos passava de medo à indignação. – Eu bem que gostaria de saber por que coisas como vocês estão atrás de mim e do meu irmão?

– Coisas? Muito indelicado da sua parte – a mulher se abaixou e levou a mão ao queixo de Marcos com um gesto feminino e o segurou delicadamente – não sei dizer se é apenas ingênuo ou se é tolice sua acreditar que tem alguma qualidade excepcional, para que tenhamos de ir “atrás de vocês”.

– Se… se não fosse v-verdade – Marcos gaguejou, não sabia bem até onde aquela conversa o levaria, mas tinha uma certeza – por que ainda estamos vivos? Se quisesse já nos teria matado, você quer alguma coisa que só… – fez uma pausa, pois algumas coisas lhe faziam sentido, se não fosse o medo lhe deixando insano, talvez fosse “a verdade” – somente eu posso lhe dar. Diga-me, o que você quer para deixar o meu irmão vivo?

 – Então é somente ingênuo – sibilou uma risada de contentamento – o que eu quero é muito mais do que você está disposto a pagar, jovem Blackwood.

– Você não faz ideia do que eu já tive de pagar, então apenas diga! – sentia o corpo de seu irmão tornando-se ainda mais frio e tinha certeza que a outra também sabia e se divertia com a cena.

– Você não é um homem de honra jovem blackwood, você mesmo admitiu, mas vou lhe conceder a chance de provar que pode cumprir com sua palavra. – Abaixou-se e sussurrou ao ouvido de Marcos, este que contorceu seu rosto em uma careta de surpresa e pavor. – será que pode pagar?


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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 23]

Autora: Mari-Youko-Sama

“A partir daqui as memórias se tornam nubladas e os relatos se tornam imprecisos, não sei dizer se na época foi escrito o que verdadeiramente aconteceu, o que Marcos supostamente entendeu ter acontecido, ou se simplesmente criei essa fantasia para me satisfazer, mas a forma como as próximas linhas serão compreendidas nunca dependeu de mim…”.

Capítulo 19: Desesperado e Confinado.

O jovem Blackwood caminhava seguindo o rastro de sangue, a tocha improvisada causava uma chama fraca que não iluminava muito bem. Em passos cuidadosos e lentos, tentava reconhecer o entorno, mas em meio às sombras deformadas de arbustos e árvores que dançavam ao vento noturno, tudo aparentava ser ameaçador e estranho.

Quando finalmente avistou uma pequena construção, no batente de uma das janelas, uma lamparina emanava uma luz amarela opaca diferente do tipo de luminescência de uma tocha. Marcos pode ouvir um ruído estridente como se algo pesado fosse arrastado e logo o ruído se repetiu em outro cômodo, parecia que uma silhueta humana tinha passado de um lado ao outro:

– Será uma briga? – sussurrou para si mesmo, não demorou e apagou sua própria tocha para não denunciar sua posição.

Seus pés passavam levemente pela terra úmida do outono e prosseguia quase como se fizesse parte das sombras, estas que suavemente acompanhavam a lamparina estranha que balançava hipnotizando os vultos noturnos. Ao encostar o corpo junto à parede da residência, o jovem Blackwood, pode fitar algo que se movia dentro da lamparina, como se estivesse preso:

– Será uma mariposa? Mas… está brilhando… – então a casa se aquietou, o vento sessou e tudo ficou incrivelmente silencioso, exceto pelo bater de asas desesperado da borboleta dourada dentro da lamparina.

Marcos ficou deslumbrado e ao mesmo tempo aterrorizado, o que estava acontecendo afinal? Por que tinha encontrado Lirou e Apony? Será que era realmente ela? Por que os rastros de sangue o levaram para aquela residência estranha no meio do nada. Marcos se sentia tão desesperado para fugir quanto aquela bela criatura confinada na lamparina.

Então um grito rompeu o silêncio, um gemido de dor. O moreno se levantou em solavanco, e ao observar pela janela viu a imagem do seu irmão em meio a sangue, ervas e garrafas quebradas, junto ao corpo estava uma silhueta feminina usando um manto cinza prateado com capuz que lhe cobria o rosto:

– Como é bisbilhoteiro, jovem Blackwood – uma voz melodiosa com a mesma intensidade em que era penetrante. – isso é um mal de família, afinal.

Marcos saltou para dentro do cômodo e se aproximou do corpo do irmão, o pegando pelos ombros e sacudindo com força:

– MATHEUS! ACORDE MATHEUS! – o desespero era nítido em sua fala.

– Ele não está morto Marcos… não ainda, pelo menos.

– Por que você fez isso, Apony?  – virou-se para encará-la – Foi você que matou Lirou também!?

Os olhos da mulher cintilavam como peças de ouro, mas seus cabelos eram de um loiro quase branco e caíam sobre os ombros.

– Eu!? – o sorriso desenhado no rosto – que doce desilusão a sua… – sibilou uma risada venenosa.


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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 22]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 18: Diga Adeus.

O poente assumia seu aspecto característico, banhando o bosque de folhas secas com uma luz intensa que distorcia as sombras tornando-as delgadas e sinuosas. Aquela figura feminina de manto escuro mantinha-se a espreita, distante de Marcos, embora este, ainda surpreso de ter reencontrado Apony mais cedo do que previa, voltasse sua atenção completamente na direção da moça:

– Não imaginei que já estivesse esperando meu retorno – caminhou, desvencilhando-se das raízes altas e arbustos secos – como sabia que eu chegaria hoje?

A mulher apenas acenou positivamente, virou-se e caminhou sem dificuldade pelo terreno acidentado deslocando-se rumo ao interior do bosque. A luz do dia despencava às costas dos dois, deixando Marcos para trás sem compreender o gesto da outra.

Este, por sua vez, teve o pé completamente enlaçado por arbustos, se desequilibrando e caindo. Para sua surpresa, tinha saído finalmente da parte mais densa do bosque, mas tinha perdido Apony de vista.

Quando a luz do dia deu lugar a noite, o jovem Blackwood pode delinear um ponto laranja luminoso adiante, que deixava uma pira de fumaça ascendente. Fosse quem fosse, era uma boa oportunidade de pedir fogo e depois retornar para seu cavalo, deixado ao lado da figueira seca. Logo ao se aproximar, o moreno pôde captar o aroma de ervas conhecidas, as mesmas que seu irmão normalmente usava. Chegando ao local, parecia ter havido algum tipo de ritual: manchas de ervas, vinho e sangue.

As sombras balançavam conforme as chamas se moviam e em meio aos objetos largados, Marcos percebeu a carcaça de um animal, a expressão se contorcendo em terror e angústia. O jovem reclinou-se e tocou com cuidado o corpo do animal que ainda se mantinha quente:

– Dê um oi para Marcela e Miguel por mim… – as palavras soaram doces e enquanto afagava o pelo amarelo escuro do animal, o jovem Blackwood percebeu que o lince tinha sido recém abatido, notando em seguida um fraco rastro de sangue.

Marcos não compreendia com exatidão o que estava acontecendo, o lince estava vivo antes do entardecer. Tinha certeza que aquele era Lirou, aquela mulher com certeza era Apony, quem mais seria? Agora o animal estava morto e ela tinha desaparecido.

E novamente parecia que a morte queria lhe pregar uma peça, brincando com aqueles que lhe eram preciosos. O jovem Blackwood puxou uma das madeiras em chama, improvisando uma tocha, e seguiu os rastros.

Havia muitos temores rondando seus pensamentos, mas o pior deles era não ter a certeza se poderia fazer algo para proteger seu irmão caçula, que em todo aquele circo, era o único que ainda não tinha aparecido.

“Os homens com certeza fazem coisas idiotas, todo o tempo, principalmente quando acreditam que têm a mínima capacidade de se opor a um fato. Mas tão certo como a chuva de verão, um homem nada mais é do que um simples expectador de sua vida, vendo como a morte brinca com tudo em que possa deteriorar até virar pó. Somos apenas coadjuvantes, de passagem pífia e insignificante.”


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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 20]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 17: Nostalgia e Remorso

As planícies rubras retornavam àqueles tons conhecidos que as nomeavam e de volta ao cerco regional de Haldris, Marcos enxergava a paisagem com outros olhos em um misto de nostalgia e remorso.

Seguia sozinho a cavalo com um manto escuro e empoeirado de terra vermelha, tinha sido acompanhado por uma escolta de dois soldados de Gernot até as fronteiras, e dali por diante, o jovem Blackwood seguiu apenas na companhia de seus pensamentos.

Ao refazer as trilhas conhecidas, algumas agora tomadas pelos ramos que cresceram na primavera e secaram no verão, sentia como se o peso do mundo estivesse em suas costas, embora não fossem mais que os poucos sobreviventes daquela região. Em sua mente, não sabia como chegaria ao novo Infante, que provavelmente teria muitas outras ocupações do que receber um soldado desertor: como ele provavelmente seria compreendido naquela situação.

A única pessoa que poderia servir de interlocutor seria Matheus, por ser um clérigo, e era de conhecimento de todos que Dastan, filho de Vincent Audhild, era incrivelmente devoto de Manda, a deusa do Oculto. Mas pedir esse favor a Matheus significava colocá-lo em uma posição perigosa naquela guerra.

– Será que deveria conversar com “ela”? – os pensamentos de Marcos parafraseavam até onde alguém como Apony poderia estar envolvida em um conflito como este, ou sequer, se ela se importaria com tudo isso. Tinha prometido encontrá-la quando voltasse, mas imaginava isso acontecendo quando a guerra de fato tivesse acabado e não em meio a uma manobra política.

Sem dar-se conta, o jovem Blackwood guiou as rédeas de seu cavalo para o interior de um denso bosque com amendoeiras desfolhando, fez caminho até uma clareira onde uma figueira destacava-se na paisagem.

Desmontou e se aproximou da árvore retorcida que mantinha alguns entalhes inscritos em seu tronco:

– Não sei o que fazer – admitiu em tom cansado, como se confidenciasse para a árvore – voltei vivo, cumpri o que prometi, mas se não fizer como Gernot me disse, por quanto tempo mais viverei? Por que alguém como eu tinha de ser escolhido para algo tão importante? Será que conseguirei… – acariciou os desníveis no tronco relendo as inscrições – me diga mãe… o que tenho de fazer? O que posso fazer? – sussurrou esperando uma resposta ou ao menos uma inspiração.

Mas diferente do esperado, um outro som conhecido chegou aos seus ouvidos. Marcos virou-se de súbito ao reconhecer aquele miado rouco, deparando-se com a figura de um lince, já adulto em meio às folhas, observando-o curioso:

– Lirou!? – o tom de surpresa era perceptível em sua voz e expressão, mas o animal correu mata adentro. O jovem Blackwood seguiu, deixando para trás seu cavalo, afinal se fosse realmente Lirou, isso indicava que talvez Matheus estivesse nas imediações.
Mas não teve tempo de alcançar o felino, após desvencilhar-se das raízes bosque adentro, uma silhueta feminina de manto em meio às sombras chamou atenção de Marcos, que imediatamente parou:

– Apony!?

“Quando pensamos que temos alguma importância, é quando somos mais insignificantes”


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sexta-feira, 25 de julho de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 18]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 16: Ter ou não ter.

O céu estava límpido de nuvens e o calor era intenso, embora dentro do forte do posto de Súlinm as rochas mantivessem o interior frio e escuro. Gernot abria um sorriso em resposta à expressão aflita do jovem Blackwood:

– “Nenhuma” é exagero, mas também não restam tantas alternativas.

– Não entendo aonde quer chegar – Marcos observava confuso, sem conseguir imaginar até onde aquela conversa o levaria.

– Você sabe quais são os dois tipos de homens que vão à guerra?

– Dois tipos? – A expressão se contorceu em um aceno negativo.

– Isso mesmo. – o capitão fez caminho em torno da mesa de carvalho. – Podemos separá-los em: homens com honra e os sem honra.

Marcos não retrucou, mas em seu âmago admitia que fosse possivelmente um “homem sem honra”.

– Os homens com honra são como seu falecido capitão: Solomon, que apesar de saber que a melhor opção na noite passada era a rendição, não o fez. Consegue imaginar por quê?

Marcos se ateve apenas a acenar negativamente, afinal não conseguia imaginar Solomon errando na estratégia da noite passada. Tinha admitido a vitória do inimigo pelo simples fato de acreditar que Eadgar era mais forte desde o começo.

– Para homens com honra, a rendição é pior que a morte, jovem Blackwood. – a suavidade escapou de sua fala, tornando-se mais séria à medida que a conversa prosseguia. – Cada homem segue apenas a um Senhor, então: “Antes morrer com honra, do que viver sem ela”.

Embora ouvisse perfeitamente as palavras do capitão de Eadgar, o conceito parecia difícil de digerir.

– Já para os homens sem honra, mesmo que estes também tenham um Senhor, sua prioridade não é a servidão e sim a sobrevivência. – lançou um olhar atento, como se finalmente tivesse chegado onde queria. – Mesmo sendo obrigados a guerrear, o objetivo é: voltar vivo.

Marcos baixou a cabeça, engolindo em seco, será mesmo que além de covarde, ainda era um homem sem honra?

– Então Blackwood, eu tenho uma proposta e uma pergunta. – Gernot sentou-se novamente. – Eu quero que você convença Dastan a se render a Eadgar. – fez-se uma breve pausa, enquanto o Capitão de Eadgar lia as expressões de Marcos. – Saindo hoje, você chegará a Haldris no equinócio de Outono. E terá até o festival do início de inverno para fazer Dastan se pronunciar publicamente sobre. Mas… antes de fazer qualquer escolha, me diga: que tipo de homem você é?

Marcos engoliu em seco e ponderou, não sabia o que responder, mas era sua chance de voltar vivo e cumprir sua promessa:

– Não sou nenhum desses homens, pois se disser que tenho honra, é o mesmo que negar sua proposta, então eu seria morto, mas… dizer que não tenho honra, é o mesmo que confirmar que não pode confiar que cumprirei nosso acordo, logo eu seria morto também. – Marcos levantou a cabeça para encará-lo. – Sou um covarde senhor, mas amo minha família, e farei o possível para voltar. Então, eu aceito sua proposta.

“Você é aquilo que é? Ou aquilo que dizem que você é?”


sexta-feira, 18 de julho de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 17]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 15 – Dura Realidade.

O cheiro de cinzas ainda pairava no ar do posto de Súlinm, tomado por Eadgar. Dentro do salão principal, apenas dois homens sentavam juntos à uma mesa farta de: carne, pão, frutas e vinho. Gernot coçava a barba enquanto observava o jovem Blackwood saciar sua fome:

– Blackwood… ter um sobrenome é algo bem incomum entre cavaleiros e espadachins, quem dirá para um camponês.

– Como tem certeza… – Marcos tomava água para ajudar a engolir a comida – que sou um camponês?

– Não tinha. – o maior empertigou-se na cadeira. – Achou que o nome soaria bem, por isso o inventou?

– Não inventei senhor, apenas… – Marcos ponderou se deveria dizer a verdade sobre seu pai, que, sendo quem era, poderia lhe dar um sobrenome, mas Gernot não acreditaria. – Recebi este nome do meu pai, antes dele deixar nossa família.

– Ele morreu? Ou simplesmente os abandonou?

– Abandonou e depois morreu para a praga… – Marcos, diferente de seu irmão mais novo, ainda mantinha respeito pela memória do pai.

– Você não é de Súlinm, é? Nossos registros não constam o seu sobrenome para este cerco.

– Não, eu vim de Haldris, do extremo sul.

– Haldris!? – Gernot voltava a coçar sua barba como quem tinha ouvido algo interessante – 2/3 de Haldris foi devastado pela praga, deve ter sido um lugar horrível no inverno passado. – o olhar afiado não fugia das expressões de Marcos.

– Certamente não foi dos melhores... – o jovem Blackwood ainda amargava a morte dos irmãos, seu rosto entristeceu – por isso, quando Súlinm fez a convocação, todos tiveram de sair de suas casas.

– Você ainda tem família lá? – o tom de voz era neutro, apesar de ainda manter a tranquilidade.

– Sim! Meu irmão caçula… é o que me sobrou de família.

– Então ainda não é casado, mas um irmão ainda é uma família. – Gernot se levantou e aproximou-se da Janela que dava visão ao pátio principal. – Você com certeza deve saber quem é Dastan Audhild.

– Filho primogênito do Senhor de Haldris.

– Vincent Audhild estava na Cidadela Aaron quando o Clã dos Regentes Crimswood caiu. – Gernot voltou o olhar para Marcos. – Dizem que: “O Senhor de Haldris caiu junto ao seu Regente”, isso faz do jovem Dastan, o novo Senhor de Haldris.

– “Caiu” junto!? – Marcos não entendia, sabia que seu pai tinha morrido pela peste, mas não fazia ideia sobre o senhor de Haldris.

– Agora me diga, Marcos… o verdadeiro Senhor de Haldris morreu, o cerco está à mercê de um líder jovem e inexperiente, 2/3 de seu povo morreu pela doença, as lavouras foram perdidas para a estiagem, que é a pior em 10 anos, seu único aliado que era Súlinm, caiu perante Eadgar. – fez-se uma curta pausa. – Quais as expectativas pra Haldris nessa guerra e depois dela?
Marcos gelou. Até ali tinha apenas agradecido por estar vivo, mas naquele momento pode perceber como prometer viver, era algo muito difícil de cumprir:

– Nenhuma. – foi apenas o que conseguiu responder.

“Tudo pode parecer muito bom ou muito ruim, depende apenas de quem está mentindo melhor.”


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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 16]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 14 – Sorte e Azar.

Fogo alto que alcançava um céu noturno alaranjado, vultos de pessoas simplesmente desapareciam na fumaça, tudo era nebuloso e distante, até a imagem de Solomon surgir e sua garganta ser transpassada por uma lança que se estendia e esticava como se fosse infinita e pudesse alcançar qualquer coisa.

Marcos despertou e ao se apoiar com o braço direito, sentiu uma dor aguda vinda de seu ombro e caiu de costas novamente sobre palha mofada. Não teve tempo para raciocinar sobre o que estava acontecendo, logo um homem alto e calvo, portando uma espada, puxou a corda que se ligava ao corpo de Marcos, fazendo-o titubear para frente e sentir ainda mais dor:

– Senhor Magnhild quer falar com você, caminhe! – puxou-lhe como se estivesse guiando um animal.

Não demoraram até chegar à construção principal feita de rochas únicas que resistiu bem ao incêndio. Ao entrar, Marcos foi golpeado atrás dos joelhos, que o forçou a se curvar e embora com o olhar baixo, conseguia sentir cheiro de comida e vinho, suas estranhas responderam ao estímulo, mas o jovem Blackwood não saiu do lugar.  Quando foram deixados sozinhos, a outra figura que estava se alimentando na outra ponta do salão finalmente se pronunciou:

– Está com fome? – a voz, apesar de grave, mantinha um timbre suave. – Deve estar, afinal, passou um dia desacordado. Eu sou Gernot Magnhild, responsável pela comitiva de Eadgar.

Logo o outro caminhou e, ao se aproximar, sacou uma faca da cintura que fez com que o jovem Blackwood gelasse, mas esta foi guiada até as cordas que prendiam o corpo de Marcos, libertando-o.

– Não precisa ter medo, o pior já passou – o maior comentou em tom zombeteiro, enquanto guardava sua faca. – Preciso que tenha disposição, a mesma disposição com a qual arremessou aquele machado em mim.
Marcos finalmente ergueu a cabeça, deparando-se com um homem de cerca de trinta anos, de fios negros, barba aparada e olhos castanhos amarelado. Apesar da expressão mais suave, o jovem Blackwood não conseguia fugir do olhar inquisidor daquele homem:

– Por que… me deixou vivo? – as palavras saíram em um tom baixo.

– Não fui eu que lhe deixei vivo. – um sorriso se formou no canto dos lábios – Você que lutou para se manter vivo.

– Eu não entendo… – Marcos estava atônito, o outro não parecia ter sido atingido, até seu ferimento no ombro tinha sido porcamente cuidado, alguém quis que ele ficasse vivo.

– Não sei dizer se foi sorte ou benção divina, mas seu machado me fez errar sua garganta, então… aqui está você. Como se chama rapaz?

– Blackwood… Marcos Blackwood. – comentou, enquanto tomava forças para se levantar.

O maior sorriu em resposta à ação de Marcos, que àquela altura começava a entender o porquê de ter sido mantido vivo.

“Quando um inimigo convida para uma refeição, tenha certeza que a batalha não acabou, apenas tomou outra forma para o conflito. Guerra de palavras são sempre as piores, porque elas decidem sobre as físicas.”


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sexta-feira, 4 de julho de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 15]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 13: Lança e Espada

Naquela noite, o céu e a terra eram imersos em um mesmo tom de laranja fumegante e avassalador. O som das chamas crepitando, das estruturas de madeira ruindo, os gritos dos homens em seus pedidos de misericórdia. Marcos estava parado, paralisado pelo terror, suas pernas bambeavam, suas mãos tremiam e seus olhos não conseguiam fixar nenhuma saída:

– N-não… não posso… e-eu prometi! – as palavras eram sibiladas, e embora sua mente tentasse se convencer a todo custo, seu corpo não obedecia.

Logo uma voz conhecida lhe chamou com urgência. Solomon, montado em seu cavalo pardo preferido, parava brevemente ao lado do moreno:

– Se prometeu, cumpra! Se deu sua palavra, honre! Morra nas chamas como um verme, ou enfrente e sobreviva! – o rosto do ruivo estava mais sombrio e duro do que de costume, mas seu olhar nunca esteve tão intenso.

Dito isto, Solomon cavalgou, gritando ordens para alguns homens, organizando-os em uma linha de doze homens montados e mais seis a pé. Rumaram para frente junto ao portão escancarado do forte. Marcos observou aqueles homens excepcionais tão melhor preparados para enfrentar uma batalha de vida e morte, que só conseguia amaldiçoar sua própria incapacidade:

– Inferno! Eu quero ir, mas não quero morrer… – apertou o punho do machado com força o suficiente para seus tremores cessarem – Eu sou um covarde… um maldito covarde! MALDIÇÃO! – Suas pernas finalmente se moveram para frente, seu rosto vertia lágrimas misturadas ao suor e as cinzas, seu coração saltava em seu peito a cada passo dado adiante, sua mente num turbilhão de pensamentos, seus pais, seus irmãos, Apony, até tudo isso desaparecer e dar lugar apenas a uma forte convicção:

– VIVER!!! – Marcos soltava o ar de seus pulmões em um grito tão desesperado quanto seu ataque, alcançando a linha de frente, a tempo de ver Solomon ser atravessado por uma lança na axila do braço direito e em seguida, o homem que o atingira deslizava sua espada de lâmina fina e comprida para a garganta do outro, abrindo um vão que fez chover o sangue do ruivo.

Marcos não teve tempo para chorar a perda, apenas se lançou contra o maior com a espada e escudo, sendo rechaçado quando o outro moveu o cadáver de Solomon na direção do moreno que bloqueou com seu escudo. No instante seguinte, as lâminas das espadas dançaram e se enroscaram de forma que o jovem Blackwood foi desarmado. Agora, com a guarda aberta, a mesma lança que perfurou seu Capitão o perfurava no ombro direito, fazendo-o cerrar os dentes pela dor aguda da ponta afiada dilacerando a carne, abrindo espaço para o cabo da arma.

Não demorou para que a mesma lâmina que ceifou seus outros companheiros, fizesse caminho ágil até sua garganta e, por reflexo, Marcos sacou seu machado e arremessou na direção do outro, sem expectativa de acerto, sem esperanças. Seu último movimento não foi para se proteger, e sim para acertar seu inimigo custasse o que custasse.

“Mortos não contam histórias, é o que dizem!”


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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 14]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 12: Averno Laranja

A lua cheia era encoberta por uma grossa camada de nuvens, tornando a escuridão noturna berço fértil para o medo que crescia no coração daqueles que estavam no posto de Súlinm. O zunido das flechas rompendo o ar e cravando-se à estrutura de madeira fazia os homens recuarem da linha de frente brevemente. Solomon gritava para manterem suas posições e enquanto os arqueiros despejavam suas flechas contra a linha inimiga que se aproximava lentamente, Marcos se organizava na fila de homens e escudos junto ao portão principal.

Logo o jovem Blackwood notou um aroma diferente impregnando o ar, mas não houve tempo para raciocinar sobre o que se tratava: entre berros de ordens de Solomon e de injurias ditas pelos homens aos soldados de Eadgar, urros de dor eram audíveis. Logo um homem caía da murada ao lado de Marcos, gemendo de dor e engasgado com o próprio sangue, a flecha fincada em seu peito, atravessando seu pulmão. O moreno foi tomado por um terror sem tamanho, no entanto, seus olhos não conseguiam fugir da imagem daquele arqueiro ao seu lado definhando com uma flecha de madeira negra, e foi naquele momento mórbido entre o medo da morte e a contemplação que o jovem Blackwood teve um estalo:

– Afastem-se do portão!! – anunciou com urgência, mas sua voz não alcançou a todos.

Logo em seguida, o céu noturno se iluminou em tons laranja com flechas incendiárias fincando-se na estrutura de madeira e, junto as flechas embebidas em líquido inflamável lançadas anteriormente, somado ao verão mais seco e quente em anos, assim como uma murada construída quase em sua totalidade de madeira, não demorou para as chamas se espalharem.

O desespero se alastrou tão rápido quanto as labaredas, os homens que cuidavam do portão principal o abriram para deixar as pessoas fugirem das chamas, a linha de homens e soldados se desorganizou e vazou do posto pelos portões entreabertos, saindo do fogo para encontrar a morte.

A linha do exército de Eadgar ceifou sem trabalho aqueles que corriam para o exterior, cercando todas as formas de saída, sendo assim, eles não precisavam avançar, deviam apenas esperar. Aqueles que ficassem dentro do posto morreriam queimados, e aqueles que saíssem seriam assassinados.

“O conceito de inferno é diferente, dependendo da divindade que se segue: uns pregam que é um submundo vazio para explanação dos erros, outros dizem que é frio e tortuoso, cheio de espinhos e espectros tentando-o a cair no esquecimento… mas sejamos francos, naquela noite, eu pude vislumbrar o inferno, não como algo de explanação ou simples sofrimento, mas o terror, o medo, e a incapacidade de poder fazer algo por mim e por qualquer outro, a triste sensação de que é o fim, e não haverá nada para ser encontrado ou nenhum lugar a chegar... Certamente, até para alguém como eu e o que sou atualmente, isto ainda é uma versão bem mais convincente do inferno do que qualquer conto dito por um clérigo.”


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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 12]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 11: Hino de Guerra.

O sol se punha em um céu vermelho, a sombra dos estandartes encobriu o posto e misturou-se às sombras da noite. A sensação de batalha iminente era algo que todos podiam perceber, dos menos hábeis aos mais experientes, todos tinham uma expressão escura guiada ao horizonte, onde pontos luminosos de fogueiras eram acesos.

Marcos não tinha muitos bens além de uma espada recebida do posto, um escudo de madeira e um machado. Era notória qual a função do jovem Blackwood: ficar ao final da fila de homens e ser mais um corpo na pilha de cadáveres. Novamente Marcos cerrava os dentes e contorcia o rosto em uma careta de desgosto, em seu âmago se agarrava à promessa que tinha feito:

– Não posso morrer! – comentou mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa.

– Ninguém quer morrer... – respondeu outro jovem de quatorze anos, com cabelos loiros arrepiados – você sabe o que dizem sobre Eadgar?

– Ouvi muitas coisas. – afirmou – Mas não sei onde termina o mito e começa a verdade... – o moreno concluiu, sem muita confiança.

– Esse é o problema, como saber? – o menor encarou Marcos com a expressão aterrorizada.

– Não sei responder – Marcos desviou o rosto e voltou seu olhar para o horizonte, o sol já tinha se posto e o inimigo ainda não tinha atacado. – O que eles estão esperando?

– O medo tomar conta de todos deste posto – a voz rouca de Solomon cortou o ambiente como uma navalha. – Eles são estrategistas, os melhores do continente Rubro, e sabem que as pessoas desse posto são em sua maioria camponeses que não têm espírito de combate… então esperam provavelmente nossa rendição sem combate.

– Nos render não é uma opção! – Marcos amargou a situação, sabia que a maioria seria decapitada e o resto posto como escravo.

– Verdade… – Solomon lançou um olhar analítico para o moreno – mas, se eles querem evitar combate, significa que não têm tantos homens, devem ter perdido uma boa leva no caminho até aqui. No entanto, nos também não podemos esperar, senão ficaremos sem alimento, o ataque acontecerá hoje.

Como um prenúncio do combate, logo se ouvia o som conhecido ecoando pelo vale, a comitiva de Eadgar começava a se alinhar novamente com seus cavalos e os homens batiam em seus escudos. Em resposta, Solomon fez sinal e todos os homens com escudos do posto repetiram o gesto, começando a bater e urrar.

A fila se movia em trote lento e alinhado, em seguida ergueram os escudos em uma parede, logo uma chuva de flechas partiu em direção a linha inimiga, mas isso não diminuiu e nem aumentou o ritmo da comitiva. Em resposta, uma chuva de flechas cortou o ar e acertou a barreira do posto. Então Marcos sentiu aquele aroma inconfundível, um calafrio percorreu-lhe a espinha, mas era muito tarde para qualquer aviso.

“O meu coração costumava acompanhar estes sons, do choque de corpos e gritos, fúria e desespero, ira e terror, vida e morte… o hino da guerra!”


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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 11]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 10 – Ventos do Norte

Nas terras mais ao norte no Cerco de Súlinm, o calor era sentido com muito mais ferocidade que nas distantes colinas do Sul do Cerco de Haldris de onde Marcos viera. No posto onde tinha sido enviando passava os dias fazendo serviços ordinários, como tapar buracos na barreira feita de traves de madeira, ou cavar sulcos nas áreas externas a barreira, embora ouvisse dos outros soldados que todos aqueles pequenos trabalhos eram importantes para a guerra, Marcos sabia que todos estavam felizes pelas linhas do extremo norte serem capazes de conter os avanços vindos do Cerco vizinho de Eadgar.

Por isso não havia muito que fazer para se ocupar. Afora o horário da manhã, onde era obrigado a treinar com os espadachins e servir de chacota aos guerreiros mais velhos por sua pouca perícia com espada, tinha de alimentar cavalos e fazer reforços em todo o posto e nas adjacências. Mas naquele dia, Marcos estava no grupo de obtenção de comida, caminhava por horas a fio nas redondezas, abrindo trilhas, caçando animais que já estavam escassos nos arredores e recolhendo ervas e demais plantas comestíveis.


“Nunca me esquecerei daquela sensação, quando avistei a coluna de fumaça e quando o vento mudou de direção trazendo aquele aroma inconfundível… e o terror da morte.”


Quando Marcos avistou a coluna de fumaça a distância, sabia que ali era a primeira torre de vigilância e logo uma sensação de medo lhe acometeu. Poderia ser apenas um incêndio comum, mas em seu âmago sabia que precisaria correr. Quando retornou ao posto, as notícias já tinham chegado junto a um falcão: era realmente um ataque.

Da murada principal era possível ver o estandarte Laranja com o brasão de lança e espada cruzadas, das terras de Eadgar. Junto a este, uma fileira enorme de cavalos se alinhava na parte superior da colina, a sombra daqueles homens montados encobriu a luz do sol que se punha atrás do exército inimigo.

Marcos sentia suas mãos tremerem, seu coração estava na garganta e suor escorria pela testa, seus olhos percorreram o horizonte. O moreno cerrou o punho, a ponto de sentir as unhas na carne da mão, e amaldiçoou mentalmente a covardia em seu espirito. Quando uma voz rouca rasgou o silêncio em uma ordem seca:

– Peguem suas armas e escudos! Assim que o sol se pôr, atacarão. E daremos a eles as boas-vindas de Súlinm.


“Dizem que enquanto se está vivo, é a constante busca pela felicidade que mantém a esperança para encarar o dia de amanhã, mas na verdade, tudo isso é balela. As memórias mais fortes são as mais aterrorizantes, dias de fome e frio certamente tornam-se pesadelos recorrentes, mas o verdadeiro terror está na morte iminente. E é esse medo que faz cada ser vivente se agarrar como um verme à vida. Os dias obscuros de guerra são recordações tão presentes que ao fechar os olhos, todos os aromas e sensações retornam como se eu ainda estivesse vivendo aqueles momentos.”


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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 10]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 9 – Aposta ou Promessa?

O céu estava limpo e o sol já estava se pondo quando Marcos avistou o posto de guarnição depois de dias de caminhada para o norte.  O local tinha sido construído aproveitando das ruínas de um velho forte de pedra, um estábulo e um pequeno moinho parcialmente tombado recoberto pela vegetação, formavam o que era aquele posto de recrutamento do Senhor de Súlinm. Marcos ouviu dos soldados que já tinham sido reunidos cerca de 500 homens: entre camponeses, espadachins errantes e ladrões naquele lugar.

Não havia uma ordem de onde dormir, Marcos conseguiu pão e carne seca na distribuição de alimento e buscou um lugar tranquilo para descansar, encontrando no moinho cheio de morcegos um bom abrigo. Lançou o manto sobre um dos blocos de pedra e ali repousou, cravando a tocha no encontro das pedras:

– Vai ficar quanto tempo ai em cima? – comentou em tom despreocupado.

Como se deslizasse das sombras do telhado para luz sem emitir praticamente nenhum som, uma silhueta feminina repousou o corpo sobre uma das vigas de madeira, o manto bege cobrindo-lhe o corpo:

– Como sabia que eu estava aqui, Marcos? – a voz de Apony parecia intrigada.

– Já disse pra mudar de perfume. – comentou, enquanto puxava uma garrafa de vinho. – Você bebe?

– Curioso… você não parece assustado. – os orbes dourados se estreitaram. – Não tem curiosidade de saber o que eu sou?

– Não acho que vou entender, mesmo explicando – deu de ombros, tomando alguns goles do vinho – mas eu acho que você não foi recrutada pra guerra.

– Você é tão divertido! – a mulher sorriu, enquanto deslizava da viga de madeira para próximo de Marcos – mas e você? Não tem obrigação de estar aqui. Por que veio?

– Eu tenho obrigação sim.

– Obrigação com quem? O antigo Regente já morreu e não lhe pediu nada.

– Não é pela memória do meu pai, mas… – olhou da garrafa para encarar os olhos misteriosos da outra – eu acho que me arrependeria se não viesse. – concluiu, um tanto incerto de suas palavras.

– As pessoas morrem nas guerras Marcos. – Apony estendeu o dedo ao gargalo da garrafa, causando um ruído fino com o movimento circular – E se você morrer, quem cuidará do seu irmãozinho?

– Eu não vou morrer, não vou perder pra ela de novo. – apertou a garrafa em sua mão.

– Está desafiando a própria morte, então? – Apony levou o dedo à boca lambendo a bebida – Que aposta ousada, jovem Blackwood.

– Não me importa se é ousada ou impossível. – tomou bons goles e seu rosto já se mostrava ruborizado pelo efeito do álcool. – Eu disse que não morreria, e não vou morrer nessa guerra!

– Então eu também vou apostar, Marcos – Apony enlaçou o pescoço do outro com os braços – Vou apostar em você e contra a morte, e se você voltar vivo… – a mulher aproximou o rosto do de Marcos – no aniversário de nosso primeiro encontro, no mesmo lugar, te direi o meu segredo. – selaram a promessa com um beijo.

“Um homem não é o que promete, mas o que cumpre. Será?”


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 09]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 08 – Ressentimentos passados.

Depois do inverno gélido que parecia durar uma eternidade, a primavera finalmente irrompeu a neblina pálida, as amendoeiras se enchiam de folhas verdes e flores campestres brotavam em qualquer canto em que o sol tocasse; abelhas zuniam por todos os lados e rouxinóis cantarolavam embalando as manhãs. Se não fossem as más notícias vindas do norte, a vida naquela região poderia ter se recuperado.

Marcos seguia com seu lince, ambos com passos ligeiros e leves, o animal sempre atento e curioso. Não demorou muito pelas estradas até que avistou o templo onde Matheus se instalou, uma das poucas construções feitas em pedra e argila da região, parte com uma coberta feita de madeira e palha e outra parte a céu aberto. Um investimento de um dos grandes senhores da região, que diziam ter sido o único a não ter sua casa invadida pela peste no inverno. O que Marcos bem sabia que era simples fofoca, não havia uma casa naquelas terras que não tivesse sido marcada pela doença.

Várias pessoas se amontoavam na entrada do local, algumas ajoelhadas, outras completamente jogadas ao chão entoando mantras e fazendo oferendas. Marcos avistou seu irmão que aconselhava uma senhora provavelmente camponesa. Logo fizeram contato visual, Matheus lançou um olhar questionador e Marcos lhe respondeu com um meneio de cabeça, o mais novo suspirou e sorriu para senhora magra que se levantou e caminhou triste para fora do templo. Matheus fez um aceno com a mão e o maior se aproximou:

– Veio pedir conselhos e bênçãos, meu irmão? – Matheus estendeu a mão para o lince que logo se aproximou e ronronou em resposta ao afago em suas orelhas.

– Sim e não. – o tom era vago, o mais alto tinha um semblante preocupado. – O boato do outro dia sobre Ele…

– Não era um boato. – Interrompeu – ele está morto e sua prole também, ou seja, tudo que restou dele somos “nós”, mas… bastardos não têm voz. – o mais jovem cerrou o punho e seu olhar verde era opaco de ressentimento.

– Matheus, escute. – o mais velho repousou a mão sobre o ombro do irmão. – Independente de sermos bastardos ou não, como você mesmo disse, só restou nós dois e temos de cuidar um do outro.

– Meu irmão, caso não tenha percebido, importa sim! – o moreno comentou categoricamente, e retirou a mão do outro de seu ombro. – Se ele tivesse nos reconhecido, agora não estaríamos com uma guerra nas costas! – encarava Marcos diretamente.

– Eu fui chamado. – completou secamente.

– Eu imaginei… – desviou o olhar para o chão. – Não queria que as coisas fossem assim.

– Ninguém quer, mas eu vou voltar, não vou lhe abandonar, Matheus. – o tom de voz foi decidido. – Por isso, me espere e cuide de Lirou enquanto estou fora.

Matheus fez um aceno positivo e logo Marcos seguiu seu caminho de volta a estrada e ao que tinha de enfrentar.

“Os sentimentos humanos são difíceis de medir… o amor, o ódio, mas a cobiça, essa sim é incomensurável”.


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sexta-feira, 16 de maio de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 08]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 07 – Trilha sem volta.

O frio perde força à medida que a primavera se antecipa, as figueiras deixam as finas camadas brancas se esvaírem por seus galhos à medida que novos brotos começam a se formar. A neblina matinal que recobre as colinas de plantio segue lentamente como uma procissão dos mortos do inverno e poucas pessoas vivas caminham de volta ao seu trabalho nas lavouras.

Marcos agora seguia por entre as trilhas abertas na mata por ele mesmo em dias passados, aos seus pés, o lince Lirou se entretinha com algum inseto que saia de sua hibernação. Marcos abriu um singelo sorriso ao ver o animal não mais tão pequeno saltando e correndo. Subitamente o lince parou, erguendo as orelhas em sinal de atenção, os pelos de seu corpo ouriçaram em um grunhido hostil. Marcos focou sua atenção e logo pôde ouvir passos pesados se aproximando, um pequeno grupo de três ou cinco pessoas provavelmente.

Ele se esgueirou da trilha para a floresta, escondendo-se entre raízes recobertas de musgo e arbustos de amoras que se recuperavam do inverno. Lirou o seguiu e manteve apenas as orelhas de pelo escuro erguidas. Não demorou muito para que três homens adultos, vestidos em cotas de malha e portando espadas na cintura, seguissem pela trilha. Dois deles tinham a pele clara e cabelos escuros, o que significava que eram da região, no entanto, o terceiro tinha o cabelo castanho avermelhado, o que indicava que vinha do extremo norte do continente Rubro.

Marcos não era um ladrão, mas em seu íntimo sabia que precisava se esconder e quando fitou o rosto duro e escuro daquele ruivo, sabia que tinha feito certo em seguir seus instintos:

– Será um grande problema, senhor. – o mais baixo, que caminhava um passo atrás de todos, reclamou. – Não sobraram muitos homens úteis nesses vilarejos.

– Soube do templo que 2/3 das pessoas da região morreram por causa da peste – um dos homens, que não tinha um olho, completou.

– Não é a toa que o Infante deste cerco regional pediu auxílio ao nosso senhor – retrucou o mais baixo – se não tivermos homens para recrutar desse cerco, o esforço não terá valido a pena.

O ruivo parou e por longos minutos observou em volta, Marcos sentia todo o sangue gelar, embora seu coração pudesse ser sentido na garganta. Os outros dois homens repetiram o gesto de seu líder em observar, mas nada avistaram, até que o homem caolho finalmente se pronunciou:

– Então, o que faremos, senhor Solomon? – Dirigiu-se ao ruivo.

– Temos uma ordem. – a voz era rouca e dura, como a face do sujeito. – Todos os homens com idade serão recrutados, isso não é uma escolha, os que não forem são apenas desertores, o sangue dos Regentes mostrou-se fraco perante a peste, então o que nos resta é a guerra.

O ruivo Solomon voltou a caminhar pela trilha, seguido de perto pelos outros dois homens em direção ao vilarejo.

“A guerra… glorioso derramamento de sangue, onde nenhum dos lados está certo e nenhum dos lados vence!”


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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Contos do Amante da Morte [Semana 07]

Autora: Mari-Youko-Sama
Capítulo 06 – Labaredas de Inverno.

Naquela época, os dias eram curtos: nasciam tarde e se encerravam logo. A parca luz que atravessava a grossa manta de nuvens tornava a imensidão opaca num lugar cheio de vultos criados por um punhado de neve que dançava ao vento.

Marcos caminhava por entre a vegetação desnuda e vigorosos pinheiros, seu olhar estava distante e escuro, parecia perdido em pensamentos. Em contrapartida, Lirou, o filhote de Lince que já tinha ganhado certo tamanho, seguia atento. Quando uma voz conhecida cortou o ambiente silencioso, Lirou adiantou-se em direção ao som:

– Parece cansado desta vez…

– É difícil manter o ânimo nesse frio – comentou, sem entusiasmo na voz, observando Lirou que rodeava um pinheiro delatando o esconderijo.

– O frio não durará para sempre – enquanto a figura feminina se revelava em um manto branco, seus fios dourados escapavam do capuz, mas seu rosto não era totalmente visível – nos encontramos de novo, então… como devo chamá-lo? – a voz era melodiosa e cheia de mistérios.

– Blackwood, Marcos Blackwood. E o lince é Lirou – o olhar continuava distante.

– Marcos e Lirou, interessante – a mulher formou um sorriso em seus lábios finos – sou Apony – fez uma reverência, abaixando sutilmente a cabeça.

– Apony de borboleta? Deveria parar de usar esses perfumes, no inverno não há flores, é apenas gélido e mórbido. – o peso na voz era evidente.

– As borboletas são sinais do início da primavera – a estranha se aproximou e estendeu a mão até o queixo de Marcos, tocando-lhe a barba sutilmente – Nós levamos os maus augúrios do inverno, para deixar o fardo dos que sobreviveram ao frio mais leves para o próximo ciclo.

Marcos a encarou por entre os fios loiros e pôde comprovar que os olhos daquela mulher eram realmente dourados, como peças de ouro polidas e reluzentes que pareciam varrer-lhe a alma em busca dos sentimentos mais sombrios. Ele caminhou um passo à frente e repousou a cabeça na curva do ombro daquela estranha, as lágrimas irromperam e molharam o manto branco. Apony enlaçou o pescoço do outro com seus braços e lhe sussurrou ao ouvido: “Queime a casa, liberte-os e seja livre também”.

***

Mais tarde naquele mesmo dia, Marcos e Matheus estavam em frente ao casebre onde viveram com o pai, a mãe e os irmãos, que naquele momento era como um grilhão feito de sentimentos e memórias. O mais velho segurava a tocha em punho, quando encarou o mais novo, este lhe respondeu com um aceno positivo. Logo mais, o casebre era envolto em chamas altas e logo alguns aldeões foram atraídos pela cremação, pois onde havia uma fogueira, havia notícias de mortos pela peste. Marcos trocou palavras com os mesmos, mas seu rosto empalideceu ao ouvir “as boas novas”:

– Qual o problema meu irmão? – Matheus adiantou-se.

– Morreram.

– Quem?

– Nosso irmão e… “ele”.

– “Ele” – escondeu a boca com a mão – … morto!?

“Eu posso afirmar que todos temem a escuridão. Se permitem fazer o errado e começam a amar o pecado… ao ponto da dor alheia satisfazer a sua dor”


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